resumo a cultura

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4. A CULTURA TEM UMA LÓGICA PRÓPRIA
Já foi o tempo em que se admitia existirem sistemas culturais pré-lógicos. Levy-Bruhl admitia mesmo que a humanidade podia ser dividida entre aqueles que possuíam um pensamento lógico e os que estavam numa fase pré-lógica. Tal afirmação não encontrou, por parte dos pesquisadores de campo, qualquer afirmação empírica. Todo sistema cultural tem suaprópria lógica e não passa de um ato primário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sistema para o outro. Infelizmente, a tendência mais comum é de considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos demais um alto grau de irracionalismo.
A coerência de um hábito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence.
Assim, ao invés de um contínuomagia, religião e ciência, temos de fato sistemas simultâneos e não sucessivos na história da humanidade.
A ciência não depende da dicotomia entre os tipos de pensamento, mas de instrumentos de observação, pois como enfatizou Lévi-Strauss: “o sábio nunca dialoga com a natureza pura, senão com um determinado estado de relação entre natureza e cultura, definida por um período da história emque vive, a civilização que é a sua e os meios materiais de que dispõe.”
Sem estes meios materiais o homem tem que tirar conclusões a partir de sua observação direta, valendo-se apenas do instrumental sensorial de que dispõe. Assim, não é nada iIógico supor que é o Sol que gira em torno da Terra, pois é esta sua sensação. Uma conhecida nossa perguntou a um caipira paulista como é que osol morre todos os dias no Oeste e nasce no Leste. “Ele volta apagado durante a noite”, foi a resposta que obteve. Menos que um pensamento absurdo, trata-se de uma concepção a respeito do universo, obviamente diferente da nossa, que dispomos das informações obtidas por sofisticados observatórios astronômicos.
Sem o auxílio do microscópio é impossível imaginar a existência de germes, daíser mais fácil admitir que as doenças são decorrentes da intromissão de seres sobrenaturais malignos. E, consequentemente, o tratamento deve ser formulado a partir de sessões xamanísticas, capazes de controlar e exorcizar essas entidades.
Nem sempre as relações de causa e efeito são percebidas da mesma maneira por homens de culturas diferentes. O homem tribal não possuía microscópio. Eteve que construir a partir de suas simples observações as teorias que durante séculos e ainda hoje têm a validade de verdades científicas.
As explicações encontradas pelos membros das diversas sociedades humanas, portanto, são lógicas e encontram a sua coerência dentro do próprio sistema.
Talvez seja mais fácil para o leitor entender a lógica e a coerência de um sistemacultural tratando-o como uma forma de classificação. Muito do que supomos ser uma ordem inerente da natureza não passa, na verdade, de uma ordenação que é fruto de um procedimento cultural, mas que nada tem a ver com uma ordem objetiva.
Rodney Needham, antropólogo inglês, faz uma interessante analogia, baseada em estudos sobre indivíduos cegos desde o nascimento e que ganham a visãoatravés de uma cirurgia. A reação inicial é de uma dolorosa aflição diante de uma caótica confusão de cores e formas. Estas lhe parecem não ter nenhuma relação compreensível entre si. “Apenas vagarosamente e com um intenso esforço pode apreender que esta confusão manifesta uma ordem, e somente com uma aplicação resoluta é capaz de distinguir e classificar objetos e adquirir o significado de termostais como “espaço” e “forma”. Quando um etnólogo inicia o seu estudo de um povo estranho ele está numa situação análoga, e no caso de uma sociedade desconhecida ele pode exatamente ser descrito como culturalmente cego.”
O que podemos deduzir da analogia formulada por Needham é que cada cultura ordenou a seu modo o mundo que a circunscreve e que esta ordenação dá um sentido cultura à...
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