Resumo do livro - dar a alma

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  • Publicado : 26 de setembro de 2012
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Dar a alma, Adriano Prosperi.


A historia

Sobre os autos do processo

Domenico Prata apresenta-se ao escrivão do tribunal criminal clamado “Del Torrone” e declara o seguinte: Lucia Cremonini, “moça crescida, jovem feita”, filha da viúva Caterina Cremonini, sua vizinha, “esta manhã deu à luz um menino, pelo o que entendi, e ele morreu, a dita jovem se chama Lucia”. Compete àautoridade. Sua preocupação é denunciar o fato.
A Justiça fez sua parte. Enquanto o escrivão se dirigia ao local para uma primeira investigação, o juiz criminal de Torrone, tão logo foi informado, deu as determinações “necessárias e oportunas para o bem da Justiça” como prescreve o rito de praxe. Era necessário, enquanto isso, que os peritos legistas do Torrone fossem inspecionar imediatamente o corpodo recém-nascido que Lucia fosse submetida a exame. O exercício da medicina legal gozava de uma sólida tradição de Bolonha.
A primeira medida tomada após a denúncia foi à inspeção na casa de Lucia, a cargo do escrivão. O escrivão ordenou que ela jurasse dizer a verdade e depois a submeter a um rápido interrogatório, anotando as perguntas e as respostas. E estando na cama quando senti que estavapreste a dar à luz, desci da cama e tive a dita criatura, que caiu no chão, e percebi que estava viva por soltou um vagido. E depois, estando a dita criatura morta, peguei e vi que era um menininho e o coloquei numa sacola que está aqui atrás da cama, e depois voltei para esta cama onde estou. E foi isso que aconteceu com minha gravidez e com o parto supracitado.
Mas não era só isso que tinhaacontecido. O oficial de justiça do tribunal olhou atrás da cama e ali encontro a sacola com o recém-nascido. O escrivão realizou uma cuidadosa inspeção do corpo, que lavrou no auto. Evidenciou-se que o bebê não morrera devido a uma queda. Virando e revirando, o corpo revelou sinais de um profundo corte que ia da boca até a garganta, “com incisão de veias, artérias e nervos com sanguecoagulando”. Os dois sinais entrelaçam-se aos dois pontos fundamentais do caso para o juiz: o menino nascera vivo, bem formado e completo em todas as suas partes, e depois morrera devido àqueles ferimentos.
Desse momento em diante, o escrivão passou a recolher provas que não dessem ensejo a dúvida. Tratava-se de um delito “nefando”, pertencendo, portanto, à categoria dos crimes mais graves, e fazia-senecessário documentar todos os detalhes. Os primeiros a examiná-lo foram legistas do tribunal, identificaram a causa da morte no ferimento feito a faca.
Neste momento, o escrivão viu em um canto, uma faca de cozinha, manchada de sangue.
O “delito nefando” estava confirmado. Na noite daquela quinta-feira, mãe e filha foram conduzidas à prisão.
A máquina da Justiça operou metodicamente,colhendo depoimentos e realizando perícias de maneira bem rápida, sem arbítrios ou violências flagrantes. Duas obstetras do tribunal, foram incumbidas de examinar o menino. As obstetras atestaram ter ela “nascido em seu devido tempo de nove meses, e viva, sendo bem formada em todas as suas partes e membros, tendo seu cabelo na cabeça e unhas nos dedos da mão e dos pés , e ter morrido por doisferimentos que apresenta, um na boca do lado direito e outro no pescoço do mesmo lado, com incisão de veias, artérias e nervos”.
Na terça-feira, dia 10 de dezembro, foram interrogadas duas vizinhas, ou melhor, duas inquilinas da mesma casa. “Fiquei amargurada, nem pude dizer mais nada e logo em seguida chegou a Justiça, e encontrou-se o menino”.
Ao final do interrogatório mostraram-lhe a facamanchada de sangue. Reconheceu que era sua. Presa temporariamente, teve de ser posta em liberdade.
Num exame de corpo detalhadamente descrito em seus relatórios, atestaram por “perícia e consciência” que ela havia dado à luz recentemente. O menino nascera vivo ao cabo de uma gestação normal e fora morto com uma faca. Estava-se diante da prova incontestável de um crime de infanticídio. A acusada...
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