Resumo-cartas a um jovem terapeuta

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  • Publicado : 5 de junho de 2012
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Resumo: CARTAS A UM JOVEM TERAPEUTA - Contardo Calligaris
VOCAÇÃO PROFISSIONAL
Resumindo, meu jovem amigo que pensa em ser terapeuta, se você sofre, se seus desejos são um pouco (ou mesmo muito) estranhos, se (graças à sua estranheza) você contempla com carinho e sem julgar (ou quase) a variedade das condutas humanas, se gosta da palavra e se não é animado pelo projeto de se tornar um notávelde sua comunidade, amado e respeitado pela vida afora, então, bem-vindo ao clube: talvez a psicoterapia seja uma profissão para você
QUATRO BILHETES
Bilhete 1
Lida a minha primeira carta, você me pergunta se, então, não haveria nenhum “desvio” (apreciei as aspas) que impediria que um sujeito se tornasse psicoterapeuta e acrescenta: “Poderia um travesti ser psicoterapeuta ou psicanalista? Evocê iria num ou numa terapeuta travesti?’. Pois é, eu escolheria um analista em que tivesse confiança. As razões dessa confiança seriam provavelmente imponderáveis e, eventualmente, irrisórias: desde a recomendação de um amigo até a decoração do consultório, passando por uma contribuição decisiva do terapeuta à última enciclopédia de bridge ou por algo que ele ou ela disse ou escreveu em matéria depsicanálise.
Bilhete 2
A objeção à idéia de um terapeuta pedófilo existe, mas é de outra natureza. A fantasia do pedófilo é propor ou impor seus desejos a um sujeito que mal entende o que está sendo feito com ele e com seu corpo. É uma fantasia de domínio e sobretudo de domínio pelo saber.
Claro, no começo de uma terapia ou análise, o paciente sempre supõe que seu terapeuta saiba muito mais doque ele, sobretudo em matéria de desejo e de sexo. Justamente, espera-se de uma terapia que ela não transforme essa suposição numa dependência crônica. Ora, é exatamente o que acontecerá se o terapeuta se servir da suposição inicial do paciente para realizar sua própria fantasia sexual, ou seja, se ele, propriamente, encontrar seu gozo na suposta supremacia de seu saber. E, se o terapeuta forpedófilo, a tentação será grande.
Bilhete 3
Pode ser que meu limite, neste caso, decorra de uma antipatia atávica por todos os grupos que nos fornecem a ocasião de agir como instrumentos de uma causa, adormecendo os espectros da consciência. Afinal, desse ponto de vista, os jovens brigadistas não deviam ser muito diferentes dos fascistas que perseguiram meu pai.
Mas talvez meu limite coincida com olimite universal sobre o qual você me questiona. Talvez um terapeuta ou um analista não tenham nunca o que propor a quem (burocrata, militante ou crente) consegue agir e perpetrar pequenos ou grandes horrores sem que sua subjetividade esteja envolvida. Você já ouviu, não é? “Essas eram as ordens”, “esta é a regra’, “isso é o que manda nossa fé”.
Bilhete 4
Em suma, muito mais do que a vontadede ensinar os outros e de mexer com suas vidas, é importante, como já lhe disse, a aceitação carinhosa da variedade das vidas com todas as suas diferenças.
O PRIMEIRO PACIENTE
A escolha de um terapeuta é sempre guiada por razões um pouco mais complexas e reveladoras do que o próprio paciente imagina.
Essa história deixa alguns ensinamentos:
1) Nem sempre é verdade que os pacientes preferemterapeutas experientes
2) Como os caminhos pelos quais um paciente coloca sua confiança num terapeuta são muitos, se não são inúmeros, o mais simples talvez seja que nos contentemos em ser nós mesmos (não é preciso desarrumar colchas e deixar baganas nos cinzeiros).
3) A experiência certamente ajuda na conduta das curas, mas, de qualquer forma, seria bom que guardássemos sempre alguns elementosdo espírito do debutante: a curiosidade, a vontade de escutar e, por que não, o calor de quem, a cada vez, acha extraordinário que alguém lhe faça confiança.
AMORES TERAPÊUTICOS
Às vezes, sentimentos negativos, como o ódio, permitem e facilitam o trabalho psicoterápico, tanto quanto o amor. Mas é certo que o amor é a forma mais comum dos sentimentos cuja presença assegura o começo de uma...
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