Resumo as veias abertas

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AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA Fernando Augusto Azambuja de Almeida1 Introdução Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializaram-se em ganhar, e outros se especializaram em perder. Nova comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançarampelo mar e fincaram os dentes e sua garganta. Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçoou suas funções. Mas a região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos paises ricos que ganham, consumindo-os muito mais do que aAmérica Latina ganha produzindo-os. Agora, a América é, para o mundo, nada mais do que os Estados Unidos: nós habitamos, no máximo, numa sub-américa, numa América de segunda classe, de nebulosa identificação. É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e seacumula até hoje por distantes centros de poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, ou homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar têm sido sucessivamente determinados de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. A cada um dá-se uma função,sempre em benefício do desenvolvimento da metrópole estrangeira do momento, e a cadeia das dependências sucessivas torna-se infinita, tendo muito mais de dois elos, e por certo também incluindo, dentro da América Latina, a opressão dos países pequenos por seus vizinhos maiores e, dentro das fronteiras de cada país, a exploração que as grandes cidades e os portos exercem sobre suas fontes internas devíveres e mão-deobra. Para os que concebem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos; outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graça ao que nós perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já se disse, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota estevesempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. N alquimia colonial e neocolonial, o ouro se transformou em sucata e os alimentos se a convertem em veneno. Potosí, Zacatecas e Ouro Preto caíram de ponta do cimo dos esplendores dos metais preciosos no fundo buraco dos filões vazios, e aruína foi o destino do pampa chileno do salitre e da selva Amazônica da borracha, o nordeste açucareiro do Brasil, as matas argentinas de quebrachos ou alguns povoados petrolíferos de Maracaibo têm dolorosas razões para crer na mortalidade das fortunas que a natureza outorga e o imperialismo usurpa.

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Acadêmico de história/UCDB e pesquisador no Programa Kaiowá/Guarani/NEPPI/UCDB. E-mail:azambujahist@yahoo.com.br

Tudo nos é proibido, a não ser cruzarmos os braços? A pobreza não está escrita nos astros; o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos. De certo modo, a direita tem razão quando se identifica com a tranqüilidade e a ordem; é a ordem, de fato, da cotidianahumilhação das maiorias, mas ordem em última análise; a tranqüilidade de que a injustiça continue sendo injusta e a forme faminta. Se o futuro se transforma numa caixa de surpresas, o conservador grita, com toda razão: “Traíram-me”. E os ideólogos da impotência, ou escravos, que olham a si mesmos com olhar do dono, não demoram a escutar seus clamores. A água de bronze do Maine, derrubada no dia da...
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