Residencia roberto millan

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  • Publicado : 26 de fevereiro de 2013
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Casas brasileiras do século XX
Abilio Guerra e Alessandro José Castroviejo Ribeiro

A arquitetura brasileira do século XX é hegemonicamente moderna. Mas a acepção do termo “moderno” deve ser entendida dentro de uma perspectiva cultural específica, que remonta aos anos 20, momento de instauração das primeiras correntes modernistas em nosso país. No bojo de um movimento que envolve em seusprimeiros momentos jovens intelectuais, em sua maioria literatos e artistas plásticos, surge uma discussão ambígua, que busca conciliar agendas muito diversas. Por um lado, a sensação aguda de um atraso em relação aos movimentos estéticos europeus, os impulsiona em uma busca frenética de atualização cultural, muitas vezes incompatível com a realidade do país. Por outro, a aposta em um caminho particulardentro dos pressupostos modernos acaba conformando uma perspectiva regionalista, de resto contraditória com a visão universalista e universalizante do ideário moderno europeu. A fórmula encontrada, que propõe a conciliação entre omoderno estrangeiro e a tradição colonial brasileira, vai ter nos manifestos e romances de Mário de Andrade e Oswald de Andrade e na pintura de Tarsila do Amaral suas maisfelizes realizações.
Tal fórmula, não muito diferente de alternativas propostas por intelectuais de outros países periféricos no mesmo período, vai ser adotada na década seguinte pelos arquitetos, também eles dispostos a buscar novos rumos para uma área estagnada, agrilhoada por convicções acadêmicas neo-clássicas. À frente do movimento, a figura lendária do arquiteto Lucio Costa, que ainda jovemassume papel de ideólogo da Arquitetura Moderna Brasileira, traçando o destino da nova arquitetura a ser realizada, a partir de uma série de ajustes das questões já estabelecidas pelos modernistas de primeira hora. O deslocamento da discussão moderna de uma área da cultura para outra – no caso, da literatura e artes plásticas para a arquitetura – tem como pano de fundo mudanças mais estruturaisna vida nacional. O poder econômico e político, liderado pelas oligarquias rurais da Primeira República e baseado nos Estados de Minas Gerais e São Paulo, após a “Revolução de 30” vai se deslocar para a cidade do Rio de Janeiro, capital do país na ocasião, mudança que concentrou nas mãos do ditador Getúlio Vargas o poder autoritário do Estado Novo. O primeiro modernismo, imantado pelas contradiçõesdo desenvolvimento industrial acelerado da cidade de São Paulo, vai ceder lugar para o segundo modernismo, com presença hegemônica da arquitetura, que vai manter laços estreitos e conflituosos com o poder discricionário que se monta a partir do Rio de Janeiro.
O grande arquiteto moderno Le Corbusier pôde presenciar os dois momentos modernos brasileiros. Sua primeira passagem por aqui, em 1929,fez parte de sua primeira viagem pela América Latina, quando visitou, além do Brasil, Uruguai e Argentina. A convite de Paulo Prado, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, o arquiteto suíço-francês conheceu os modernistas paulistas e fez ao menos uma apresentação no Rio de Janeiro. Retornaria em 1936, agora a convite de Lucio Costa e do ministro Gustavo Capanema paraparticipar dos projetos da Cidade Universitária e da sede do MES – Ministério da Educação e Saúde, ambos no Rio de Janeiro. A profunda relação entre Le Corbusier e a arquitetura brasileira que se formou a partir de então é fundamental para a compreensão do desenvolvimento da arquitetura moderna no Brasil. Contudo, o Le Corbusier que tão profundamente inebriou os jovens intelectuais modernistasbrasileiros e, posteriormente, os arquitetos cariocas, não foi o do pensamento já lapidado e estabilizado. Foi o jovem arquiteto – naquela ocasião muito mais um prosélito das promessas modernistas na ausência de realizações a oferecer – que para aqui veio no final da década de 20 e deslumbrou-se com a imensidão do território e o esplendor da mata virgem. Deslumbramento que o levou a escrever os...
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