Resenha o destino de uma vida

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  • Publicado : 5 de abril de 2012
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Resenha O destino de uma Vida


Jessica Lange faz Margaret, uma assistente social, casada, aparentemente bem casada, com marido atencioso – embora tenha uma amante; e esse parênteses, embora longo, é necessário. Bem no começo do filme, nos primeiros 15 minutos, aparece uma cena rápida em que ela liga para ele dizendo que vai ter uma tarde de folga; ele está no trabalho; dá uma olhada para umamulher que está ao fundo da cena, e diz ao telefone que não pode deixar o trabalho. A cena mostra a sensibilidade desse diretor. Basta isso, basta apenas essa cena para o espectador perceber que o marido tem uma amante. Mais tarde, muito mais tarde, no tribunal, o advogado da parte contrária trará à baila a amante do marido. De cuja existência, obviamente, a mulher não tinha a menor idéia.Pois bem. A renda mensal de Margaret e seu marido atencioso porém infiel é boa, o padrão de vida é alto, moram numa bela casa de um subúrbio distante de Nova York, têm uma filha no início da adolescência com todas as características de uma menina em início da adolescência de padrão de vida alto. Por uma dessas coincidências da vida, a assistente social topa, no hospital em que trabalha, com um bebênegro, abandonado pela mãe numa caixa de lixo com três dias de idade.


O filme começa com um longo plano feito de helicóptero sobre Nova York – e o plano lembra muito, e provavelmente por intenção, mesmo, o plano inicial de West Side Story. Vemos os arranha-céus riquíssimos da capital do planeta, à noite. Depois vamos nos afastando da parte rica de Manhattan, em direção à periferia, aoscortiços. Aí temos a cena em que a mãe, Khaila (Halle Berry), abandona a criança. Ela vive num cortiço de negros lumpen, drogados, aquela miséria absolutamente miserável que a gente conhece bem aqui no Brasil, mas que está lá, a poucos quilômetros da Times Square, do centrinho da capital do mundo. A mãe está precisando de crack, e por isso deixa o bebê em uma caixa junto às latas de lixo. Corta, estamosde manhã, e chegam os lixeiros. No momento em que a lâmina do caminhão de lixo vai triturar a caixa, o bebê chora. Corta, e estamos no hospital em que a assistente social Margaret trabalha.


A mãe do bebê – Isaiah é o nome dele – é presa pouco depois, roubando um supermercado. Não tenta ir atrás do garoto porque tem certeza de que ele está morto.


A família branca e rica adota o bebê negrofilho da viciada em crack. Passam-se três anos; Khaila, a mãe biológica, se recupera na cadeia e na saída dela, se livra da droga, e quer o filho de volta. Procura advogado, vai à Justiça.


[pic]Aí entra a parte política da história. O hoje organizadíssimo movimento negro americano entra em cena. Os defensores dos direitos dos agora chamados afro-americanos percebem que é um caso exemplar, umcaso politicamente exemplar, e vão à luta. Arranjam dinheiro para sustentar Khaila no período do julgamento. Colocam-na numa casa simples, mas digna. Preparam-na psicologicamente. Impedem que ela veja um paquerador por quem ela está até interessada, porque isso poderia contar pontos contra ela. Na hora das audiências, dão nela um baita banho de loja.


Toda a defesa de Khaila é baseada napremissa de que negro tem que viver com negros – além, é claro, de no fato de que a mãe se recuperou, está pronta para a vida em sociedade, etc. É uma coisa horrorosa, patética, nojenta – mas é assim, naquela sociedade mais rica e avançada que já houve em cima deste planeta.


Há diálogos muito fortes, muito bons. O duelo entre o advogado negro da mãe negra com a mãe branca é de arrepiar. Margaret,a mãe branca, mete o dedo fundo na ferida. Faz um discurso: “Mas aqui só se está falando da cor da pele. Não se falou um momento aqui de amor, de carinho. Onde é que entram amor e carinho aqui? Isso não é politicamente correto?”


Essa cena é antológica. No momento seguinte, advogado racista e mãe branca carinhosa descem para a porta da garagem do tribunal, para fumar – claro, é proibido...
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