Resenha a sociedade contra o estado

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  • Publicado : 6 de outubro de 2012
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Um aspecto da constituição das sociedades vinha sendo usado muito categoricamente como parâmetro para separá-las em dois tipos: a existência ou não de um Estado. No campo da Antropologia esse pressuposto foi aceito durante algum tempo, mas ficou difícil fazê-lo se sustentar em pé depois que Pierre Clastres (1934-1977) publicou os ensaios reunidos no livro A sociedade contra o Estado, relançadoesse ano pela editora Cosac Naify na coleção Portátil.
Clastres é virulento em suas críticas: mostra como tomar a existência de um Estado cristalizado e instituído como critério para “medir” o grau de evolução de uma sociedade é uma postura etnocêntrica errônea e enganadora. O autor, no entanto, não somente afirma tal, mas busca nas assim chamadas “sociedades primitivas” da América do Sul oargumento empírico para sustentar suas investidas. A não existência de Estado na grande maioria dos povos indígenas sul-americanos (e mesmo os da América Central e do Norte) não os tornava “sociedades sem Estado”, como se lhes faltasse algo – e que, portanto, fossem incompletas e atrasadas -, mas sim, como defende Clastres, “sociedades contra o Estado”.
A mudança dessas palavras (“sem” para “contra”)altera profundamente a leitura e a concepção a respeito dessas sociedades e, em consequência, da nossa própria. Um dos caminhos que Clastres adota para pensar a política é a discussão da concepção de poder. A política é muito associada à ideia de poder, e esse, não raro, à ideia de comando-obediência, i.e., coerção. O que está no cerne da concepção hegemônica (i.e. a Ocidental) de Estado – econsequentemente de poder e de política – é a ideia de coerção, que não raro se transmuta em violência, tanto física quanto simbólica. Pode parecer uma associação rápida, mas ao longo de seus escritos Clastres mostra como não é, e como a gênese do Estado enfeixa muito mais acontecimentos e desdobramentos que podemos supor à primeira vista.
Diante dessas constatações, não se torna difícil perceber como avisão que separa as sociedades humanas em sociedades com ou sem Estado é profundamente etnocêntrica (1); e como a recusa das “sociedades primitivas” em relação ao Estado está longe de ser estapafúrdia ou sinônimo de atraso (2). Essas constatações ainda servem para nos colocar diante de todo um rearranjo das noções de política e poder, que precisam ser necessariamente repensadas diante de novasevidências e a partir de outras perspectivas, como a de Pierre Clastres, por exemplo.
A questão central de todos os ensaios reunidos nessa obra é a dinâmica política das sociedades indígenas, especificamente aquelas da Floresta Tropical, ou seja, aquelas que, diferentemente dos povos andinos, não possuem a instituição do Estado como algo que regesse a vida social. A riqueza de A sociedade contra oEstado, entretanto, não repousa somente no tratamento distinto da política (embora essa seja o ponto culminante), mas sim pela forma como Clastres usa das longas e vastas descrições antropológicas para desnudar os pilares de sustentação da política. Isso faz com que ela deixe de ser uma estrutura que paira sobre todos e passe a ser uma instituição cujas raízes estão fincadas na realidade socialmais cotidiana, seja no trabalho, nos ritos, nos costumes, na divisão sexual, nas dinâmicas familiares e assim por diante.
Dissecar o “comportamento” político das sociedades indígenas e descobrir como é regido o estatuto social de convivência sem a presença reguladora do Estado, eis o objetivo mais complexo e instigante da obra. O antropólogo francês vai pouco a pouco desconstruindo toda a dinâmicade existência social dos indígenas e vendo, passo a passo, aspecto a aspecto, como essas sociedades se regulam e como está constituído o poder político nelas. Não possuir Estado, afinal, não faz delas sociedades “apolíticas”, mas sim distintamente políticas.
Desse intento é que surgem estudos sobre a tribo dos Guayaki, acerca da divisão das tarefas por sexo e todo o papel social que lhes é...
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