Resenha: a parabola do cagado velho

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  • Publicado : 9 de julho de 2014
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Pepetela, o cágado e a literatura.

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos assina suas obras como Pepetela e é um renomado escritor Angolano. Professor de Sociologia, é hoje um nome consolidado no meio literário, sendo uma das vozes celebradas por apresentar temas relacionados a guerra civil da Angola ao texto literário, trazendo as guerras, os desajustados sociais, desigualdades sociais eeconômicas do país. Algumas de suas obras são Muana Puó , Mayombe, Luandando e A Parábola do Cágado Velho. Este ultimo será analisado.
O pano de fundo para a história de amor de "A parábola do cágado velho", publicado em 1997, é o movimento de libertação dos países angolanos que teve início no começo da década de 1960. Ulume, o narrador e protagonista da história, é um angolano que vive no Kimbo ese apaixona por Munakazi em meio a guerra, mesmo já sendo casado com Muari. É importante lembrar que Pepetela não tem qualquer preocupação em enquadrar a trama em algum momento da história ou geograficamente. Mas é possível fazer uma analogia ao inicio da guerra civil na década de 70 e dos embates entre MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e a UNITA (União para a Independência Totalde Angola).
O romance em análise apresenta um conjunto amplo de referencias, aos tempos narrados, nos quais pode ler-se a criação de uma cultura pública, resgatando patrimónios localizados. Igualmente mostram como se implicam conceitos externos em vivências internas das comunidades rurais, permeando-se diversos signos de incompreensão para com esse universo, para além de uma notória apresentaçãode mecanismos que se implicam na desruralização de um país. Há confusão e certo sofrimento quando Ulume e os outros moradores do Kimbo vêm seu mundo modificar-se, gradativamente, pela presença constante da guerra e uma modernização descontrolada, onde as tradições vão sendo perdidas e ficando obsoletas. Velhos mitos angolanos são abordados.
Cada personagem e objeto da obra tem um papelfundamental para o entendimento e mostra o cuidado e atenção que Pepetela tem ao escrever. No pensar e escrever a Angola, o autor cria uma trama em que o bem e o mal são questionados e misturados o tempo todo. No momento de guerra os moradores do Kimbo nem sabem quem esta lutando e nem pelo que eles lutam, mas entendem que a batalha, quando alcança a aldeia, é sempre prejudicial e os “nossos” e os“Inimigos” são confundidos por toda obra.
"De outra vez, chegaram soldados a aldeia [...] disseram conhecer Luzolo. [...] Beberam maluvo das palmeiras, acabado de ser recolhido, comeram funge com o cabrito, agradeceram, foram. [...] Tinham dado explicações sobre a guerra que travavam, mas ninguem percebera bem.
Outra vez apareceu um grupo de oito. Não conheciam Luzolo, nem outro nome da aldeia. Galinhasforam mortas, porque o exigiam, tinham fome e o povo deveria participar da guerra, alimentando os soldados. Explicaram e ninguem percebeu. E outro grupo. E outro. Ate que um dia chegou o mais numeroso de todos e trazia um recado de Kanda, que estava bem e pedia que os alimentassem por dois dias. [...] Toda a aldeia participou, mas ja não com a boa vontade anterior." (PEPETELA: 1996, 38)

O cágadotem grande valor para obra, já que este representa a sabedoria antiga e as tradições, a maturidade. Ulume é o protagonista, e toda a história gira em torno dele. Muari, a primeira esposa, vem representar as tradições e o respeito e Munakazi é o moderno e o desejo pelo novo. O Kimbo é o lugar pacato, numa área rural e por fim a Calpe, uma cidade que é o anseio da maioria dos jovens mas que nãopassa de utopia. Há ainda os filhos de Ulume e Muari, Luzolo e Kanda, onde o conflito entre os irmãos remete a guerra travada pela UNITA e pelo MPLA. A preocupação dos pais com os filhos era constante principalmente depois que eles deixam o Kimbo em grupos diferentes. “De uma coisa estava certo e não lhe agradava: Se o seu filho Luzolo estivesse com os nossos, então Kanda estaria com o inimigo:...
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