Resenha sobre o livro Budapest

Páginas: 6 (1404 palavras) Publicado: 11 de novembro de 2014
NOVO ROMANCE DE CHICO BUARQUE


Por José Miguel Wisnik

A história de um escritor dividido entre duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas.

O professor de literatura José Miguel Wisnik analisa Budapeste

"O AUTOR DO LIVRO (NÃO) SOU EU"

"literatura [...], das artes a única que não precisa se exibir" [p. 117]

Tecnicamente, Budapeste é um romance do duplo, tema clássicona literatura ocidental desde que a identidade do sujeito tornou-se problema e enigma. A questão desfila nas narrativas do século XIX, através dos motivos da sombra, do sósia, da máscara, do espelho, e evolui para a indagação dessa esfinge impenetrável e desencantada que é a própria pessoa como persona e ninguém. Na criação literária, no entanto, o escritor é o duplo de si mesmo, por excelência epor definição, aquele que se inventa como outro e que escreve, por um outro, a própria obra.
Literatura é uma alteração da identidade, uma questão de outridade. Borges consagrou-se ele mesmo como personagem e autor da condição do duplo ("Borges e eu"). Henry James, na sua novela A vida privada, fala de um escritor célebre que exibe em efígie, nos salões, a sua mundanidade fútil, ao mesmo tempoem que um outro secreto, recolhido ao quarto, escreve por ele a sua obra profunda. Abre-se um fosso entre a imagem pública e o trabalho literalmente obscuro de escrever. Um anônimo radical é a outra face do medalhão. Quem leva a fama?
Tudo isso serve - e não serve - para se falar de Budapeste. Chico Buarque teceu uma variação inusitada (poderíamos dizer diabólica, se consideramos que o húngaro é a"única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita"), sobre o escritor e seu duplo, sobre fama e anonimato, sobre identidade e impostura, sobre quem-é-quem e ninguém. 
Um autor anônimo de textos sob encomenda, de nome José Costa, resguardado sob rigorosa "confidenciabilidade", ponto de honra da firma Cunha & Costa Agência Cultural, transita das monografias escolares, cartas deamor e artigos de jornal para discursos políticos e autobiografias romanceadas, culminando no best-seller involuntário e na alta literatura. A versátil picaretagem, sob a rubrica dos serviços "diferenciados" oferecidos pelo escritório em Copacabana, mistura-se, na trama, com o seu enfeitiçamento pela língua húngara, quando de uma escala forçada do avião em que viaja, pela Lufthansa, em Budapeste.A língua ininteligível, toda feita de um fluxo de nomes anônimos, em que "destacar uma palavra da outra seria como pretender cortar um rio a faca", língua quase-música e sem emendas, "não constituída de palavras", língua sem castração, em suma, invade-lhe os sonhos e o toma como uma idéia fixa, levando-o a criar uma tresloucada vida paralela em Budapeste, para onde retornará três vezes, numpingue-pongue cada vez mais acirrado com a sua cidade de origem, o Rio de Janeiro. Casado aqui com uma apresentadora de telejornais, envolve-se lá com uma professora de húngaro, tomado pela obsessão de dominar a língua às últimas conseqüências, até eliminar todo vestígio de estrangeiridade. O que o leva, na verdade, a um mergulho sem volta numa atmosfera de estranhamento permanente em que o convívio comas palavras resultará, insólita e hilariantemente, em poesia.
O esqueleto narrativo diz muito pouco, no entanto, da textura ao mesmo tempo cômica e poética do livro, sustentada em tom sóbrio e marcada ponto a ponto por aquela agudeza estonteante de observação que já conhecemos de Estorvo e Benjamim. Detalhes compartilhados, cotidiana e automaticamente, por nós, de tópicos de telejornal a umacesta marajoara onde se jogam revistas, dos entornos do quiosque de coco em Ipanema a "expertises" que renovam o jargão dos negócios, de uma gíria de geração ao território cintilante do free shop, "pátria de algarismos, ícones e logomarcas" (que atravessa tudo, do Rio a Budapeste), saltam à vista, de repente, como índices palpitantes, ao mesmo tempo equívocos e precisos, do imaginário de massas, do...
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