Resenha: na senzala, uma flor

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  • Publicado : 10 de abril de 2013
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SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações da família escrava. RJ: Nova Fronteira, 1999.



Professor da Universidade Estadual de Campinas, o norte-americano radicado no Brasil Robert W. Slenes é um dos principais pesquisadores a respeito da escravidão no Brasil, se preocupando em trabalhar com a questão demográfica e também se ocupando do problema da famíliaescrava. Em sua obra, tida como referencia na área, ele combate a opinião prevalecente até recentemente, de que os escravos eram sexualmente promíscuos, não tendo um mínimo de vida familiar normal. Trabalhos como o de Slenes têm servido para trazer uma nova concepção e criar uma ampliação das interpretações sobre o viver do escravo no século XIX.

O ponto de partida foi justamente a descriçãofeita pelo viajante francês Charles Ribeyrolles, em seu livro Brasil Pitoresco (1859), no qual ele notava que jamais havia visto nos cubículos dos escravos sinais de esperança ou de recordações, desprovidos de condições mínimas para que a família pudesse fazer parte da vida entre os escravos, viviam como "ninhadas", e deste modo ele concluiu que não havia entre eles nenhuma perspectiva de passado ede futuro: "Nos cubículos dos negros, jamais vi uma flor: é que lá não existem esperanças nem recordações”.

Slenes acredita que houve, sim, o que se pode chamar de uma família escrava, baseada em casamentos estáveis. Mostra que, em Campinas, 61,8% das mulheres cativas com 15 anos ou mais eram casadas ou viúvas (dado de 1872). Vai além: mostra que a organização dessa família era forma deresistir à dominação do fazendeiro. Organizar uma família significava alguns direitos (maior privacidade e espaço para produzir, entre outros), facilitando a acumulação de pequenas quantias.

Em sua primeira parte “lares negros, olhares brancos”, o autor imerge nos relatos de viajantes europeus, recordações de fazendeiros e imagens literárias da época (romances). Dessas fontes, Slenesdemonstra o quanto esta visão branca é etnocêntrica, distorcida e pouco confiável, criando assim uma imagem de devassidão que marcou até recentemente o comportamento sexual e vida familiar dos escravos na maioria dos livros de história. Porem, Slanes cita que com uma análise mais profunda pode-se obter informações importantes sobre a cultura negra: padrão de construção das senzalas, alimentação,economia doméstica.

Porem, não é apenas dos relatos de viajantes que encontramos visões distorcidas e mal avaliadas. Slenes deixa claro que o observador brasileiro também cometia os mesmos erros: “mesmo um viajante criterioso, como a maioria daqueles citados acima, dificilmente conseguiria livrar suas observações sobre a família escrava da influencia de ideias preconcebidas, suas próprias e asde seus informantes. Por outro lado, embora não estivesse no Brasil en passant e pudesse, portanto, reconhecer e descartar as histórias mais ridículas sobre o país, ainda assim era quase tão distante dos escravos, em seu modo de ser e de perceber, quanto ao viajante”.

Seguindo, Slenes nos apresenta as imagens preconcebidas, que teriam atrapalhado a visão do observador estrangeiro enacional, citando que haveria nesse período uma imagem deformada do próprio negro, produzido através de um racismo extremo, muito presente nessa época. Também como obstrução da visão desses observadores esta o preconceito cultural, como o próprio autor explica, os estrangeiros que escreveram sobre os brasileiros vinham do norte e do oeste da Europa. Nessas nações era muito baixo o índice de reproduçãofora de uniões sacramentadas pela Igreja, não é de surpreender, portanto, que o viajante europeu visse com maus olhos o baixo índice de casamento religioso e as grandes taxas de filhos ilegítimos dentre os escravos brasileiros.

Certo de que a família era importante meio de transmissão de cultura, como já foi explanado, o autor imerge nos estudos demográficos e nos relatos de viagem a...
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