Resenha- lar, trabalho e botequim

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  • Publicado : 23 de março de 2013
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“A Perspectiva Historiográfica e Metodológica de Sidney Chalhoub: as redes de poder e o cotidiano carioca através de processos criminais”
Keurelene Campelo Santos

O historiador Sidney Chalhoub defende sua dissertação de mestrado em 1984, após dois anos a mesma pesquisa torna-se o livro “Trabalho, Lar e Botequim: O Cotidiano dos Trabalhadores no Rio deJaneiro da Belle Époque”. O autor tenta reconstruir o cotidiano da classe trabalhadora carioca no início do século XX, período costumeiramente conhecido por “República Velha” ou “Primeira República” durante o governo de Pereira Passos.
O autor utilizou os processos criminais de homicídio ou tentativa de homicídio da época como fonte para recuperação da visão oficial de uma sociedade marginalizadae que não tinham sua história contada através de seu próprio ponto de vista. Chalhoub destaca que o fundamental, em cada história contida nos processos, não é descobrir o que realmente aconteceu, mas sim compreender e explicar as diferentes versões que os agentes sociais envolvidos apresentam em cada interrogatório. O autor também utilizou jornais da época, mas alerta sobre o papel da imprensa,pois os próprios diretores dos jornais exigiam que os redatores inventassem e “enfeitassem” a notícia para vender mais exemplares e estigmatizar os comportamentos dos populares como meros desordeiros, vadios e caóticos.
Os protagonistas do livro como Zé Galego, Paschoal e Júlia, entre tantos outros, viveram suas experiências cotidianas na cidade do Rio de Janeiro em uma época que a capital dajovem República passava por profundas transformações em sua estrutura demográfica, econômica e social. Segundo José Murilo de Carvalho em seu livro “Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi”. “Não seria exagero dizer que a cidade do Rio de Janeiro passou, durante a primeira década republicana, pela fase mais turbulenta de sua experiência. Grandes transformações de naturezaeconômica, social, política e cultural, que se gestavam há algum tempo precipitaram-se com a mudança do regime político e lançaram a capital em febril agitação, que só começaria a ceder ao final da década”.
As transformações sócio-econômicas como, por exemplo: crescimento populacional acelerado, emancipação dos escravos, desiquilíbrio numérico entre os sexos, grande concentração de indivíduos na faixados 15 a 30 anos de idade, devem ser analisadas no contexto da transição para a ordem capitalista que ocorreu entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. A república assume o objetivo de transformar o homem livre, seja ele o imigrante pobre ou o ex-escravo, em trabalhador assalariado.
Nesse contexto o primeiro capítulo do livro, intitulado “Sobrevivendo...” o autor vaianalisar questões ligadas à sobrevivência material, como o trabalho e a habitação. Surge especialmente no Rio de Janeiro, uma nova ideologia do trabalho e a vigilância e repressão policial e judiciária. Com o fim da escravidão, que era o trabalho degradador, era fundamental que o trabalho ganhasse uma valorização positiva e que se articulasse com conceitos do tipo “Ordem e Progresso” com oobjetivo de inserir o Brasil no sentido de “civilização” em uma também “nova” ordem social burguesa.
O trabalho passa à assumir o caráter regulador da sociedade, enquanto a ociosidade é uma ameaça constante à ordem, assim como despertar o sentimento de nacionalidade e superar a “preguiça”, abrindo as portas para o comércio com as nações europeias mais avançadas e dessa forma enquadrar o homem livre naordem social capitalista. Esse enquadramento do homem liberto em trabalhador assalariado não se deu apenas através da repressão e violência policial, pois era necessário educar esses libertos. Para o liberto se tornar um cidadão civilizado era preciso internalizar que o trabalho “era o valor supremo da vida em sociedade” (Chalhoub. Pag. 43). Era repassada ao liberto a noção que ele estava...
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