Resenha filme wall street

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  • Publicado : 5 de junho de 2012
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Os críticos de Oliver Stone podem falar o que quiserem, mas ninguém em sã consciência pode afirmar que ele não é corajoso. Um dos diretores mais polêmicos do final do século passado, Stone sempre teve coragem de abordar, em seus filmes, temas relevantes e até espinhosos: dos horrores da guerra (Platoon [idem, 1986] e Nascido em 4 de Julho [Born on the Fourth of July, 1989]), passando pelaglorificação da violência (Assassinos por Natureza [Natural Born Killers, 1994]) e chegando até a conspirações governamentais (Nixon [idem, 1995] e JFK – A Pergunta que Não Quer Calar [JFK, 1991]), o cineasta jamais fugiu de uma boa briga, construindo uma filmografia que, se peca na qualidade alguns momentos, funciona sempre como válido ponto de partida para reflexões sobre alguns dos mais importantesmomentos da história recente dos Estados Unidos.
E talvez Wall Street – Poder e Cobiça (Wall Street, 1987) seja o principal representante desta maneira de analisar o cinema de Oliver Stone. Em sua essência, não se trata de um grande filme, mas funciona muito bem como documento histórico sobre a mentalidade dos Estados Unidos em meados dos anos oitenta. O roteiro, escrito pelo próprio Stone e porStan Weisler, tem início em 1985, apresentando o jovem corretor de ações Bud Fox. Extremamente ambicioso, Fox tenta se aproximar de um dos maiores “tubarões” do mercado da bolsa, o milionário Gordon Gekko. Pouco a pouco, o iniciante começa a ganhar a confiança de Gekko, desempenhando uma série de serviços para o veterano. À medida em que enche os bolsos de dinheiro e descobre os benefícios dessavida, Fox começa a perceber os caminhos nem sempre honestos de Gekko, enquanto questiona a sua própria moralidade.
Existem filmes que sobrevivem à força do tempo graças à sua qualidade e outros que o fazem por representarem o espírito de uma época. Wall Street, ainda que tenha suas qualidades, pertence ao segundo grupo, capturando a forma de pensar norte-americana da década de oitenta de formalouvável. Stone construiu uma história sobre os chamados “yuppies”, os jovens que inverteram os valores defendidos nos anos sessenta e setenta ao buscarem incessantemente as conquistas materiais, onde a aparência e aquilo que se possui são os conceitos pelos quais se mede alguém. Desde os primeiros minutos de Wall Street, Stone deixa claro que é exatamente este ponto de mudança que deseja retratar emseu filme: quando o personagem de Charlie Sheen diz ao seu pai que “não há mais nobreza na pobreza”, o cineasta afirma que, na visão deste personagem-símbolo daquela era, a luta pela igualdade e pelos direitos deu lugar à corrida constante pelo sucesso profissional.
 
Wall Street pode parecer estranho para alguns em função de seus imensos celulares e precários computadores, mas éinteressante analisar como esta nova percepção de vida surgiu exatamente em um momento de total renovação tecnológica. Na lógica onde o “ter” é mais importante que o “ser”, as relações humanas são deixadas de lado nessa interminável jornada rumo ao topo – e tal “desumanização” também não deixa de ser resultado desta explosão de tecnologia e modernidade. Neste sentido, os anos oitenta surgem como umperíodo crucial da cultura norte-americana, os primeiros passos da formação de uma consciência que perdura ainda hoje, onde a busca pela pujança material é o grande objetivo de vida. Não importa ter o bastante, porque nunca é o bastante. Esta questão, aliás, é bem apresentada por Stone em uma cena na qual Bud Fox confronta Gordon Gekko e pergunta diretamente: “Quanto dinheiro é suficiente?”
Não é poracaso, então, que, em uma cultura de competitividade acirrada onde uma conta bancária modesta é sinal de fracasso, uma frase de Wall Street tenha entrado para a história do cinema: “Ganância é bom”. Proferida por Gekko em frente à diretoria de uma empresa que pretende comprar, a fala é a síntese de todo o seu discurso – e, de certa forma, do período abordado pelo filme –, no qual os mais...
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