Resenha crítica do livro a geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de yves lacoste (editora papirus, 1988, tradução de maria cecília frança).

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  • Publicado: 16 de abril de 2013
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Resenha crítica do livro A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de Yves Lacoste (editora Papirus, 1988, tradução de Maria Cecília França).
José William Vesentini (*)
Editado originalmente em 1976 na França – e reeditado em 1985 com algumas correções e acréscimos, principalmente uma superficial autocrítica – este livro é considerado um clássico da chamada geografiacrítica. Esta tradução foi feita a partir da edição de 1985, na qual o Autor manteve as suas idéias fundamentais e ao mesmo tempo procurou esclarecer determinadas dúvidas (ou responde a certas críticas) que a primeira edição havia suscitado. Na verdade, o Autor já tinha desenvolvido sua tese principal – aquela contida no título da obra, ou seja, que a “verdadeira geografia” é a geopolítica, que ageografia sempre serviu principalmente (embora não apenas) para fazer a guerra, para fins estratégicos – num artigo publicado em 1973 (1). Este livro retoma e amplia as reflexões contidas nesse artigo.
Tornou-se praticamente um consenso a afirmação segundo a qual esta obra de Lacoste – assim como a revista Hérodote, revue de géographie et de géopolitique, idealizada e dirigida por Lacoste, cujoprimeiro número também saiu em 1976 – constitui o trabalho seminal da geografia crítica. [Não devemos confundir, como muitos fazem, a geografia crítica inicialmente latina com a geografia radical anglo-saxônica existente desde o final dos anos 1960, apesar de uma aproximação recente, já neste novo século, quando alguns poucos autores desta última corrente – tais como Tim Unwin, Nicholas Blomley eoutros – passaram a falar na transição ou metamorfose de uma geografia radical para uma crítica com base principalmente nos escritos de Habermas e na incorporação de outras correntes críticas além do marxismo (anarquismos, pensamento pós-moderno, feminismo, etc.). Destarte, a geografia crítica desde seu início, com Lacoste e a sua entourage, buscou subsídios não apenas no marxismo (com reticências),mas principalmente no anarquismo e nas idéias de autores pós-estruturalistas ou pós-modernos como Foucault, por exemplo. Por outro lado, a geografia radical anglo-saxônica, pelo menos até recentemente, era de uma forma geral dogmaticamente marxista, fortemente marcada pela forte presença e influência de David Harvey (que colaborou, como autor secundário, no círculo parisiense capitaneado por LuisAlthusser no início dos anos 1970, algo que até hoje marca profundamente seus trabalhos), de Neil Smith (um ex-orientando de Harvey) e outros com uma leitura mais ou menos semelhante do marxismo e da renovação geográfica].
A nosso ver, neste livro Lacoste procurou mostrar a enorme importância da geografia – um “saber estratégico”, indispensável não apenas para as guerras militares como também paraqualquer forma de contestação ou luta no e com o espaço (greves, passeatas, demadas por melhorias no local, por uma maior qualidade de vida, etc.) – com vistas principalmente a dar uma resposta aos estudantes de 1968 que lhe indagaram “para que serve esta disciplina tão maçante?”. (Ele lecionava geografia para o curso de ciências sociais no campus da Universidade Paris X em Nanterre, exatamente oepicentro das contestações de maio de 1968!).
Por sinal, dois acontecimentos marcantes e fundamentais para entender as idéias de Lacoste nesta obra foram a guerra do Vietnã (1959-1975) e as rebeliões estudantis do maio de 1968 na França. Estas lhe colocaram um desafio: o para que serve a geografia, qual é a sua utilidade além das “simplórias e entediantes aulas da disciplina no ensino básico”,como o autor ironiza (seria essa a percepção da maioria dos franceses naquela ocasião) no primeiro capítulo deste livro. E a guerra do Vietnã, o acontecimento internacional mais divulgado pela mídia dos anos 1960 até 1975 (além do grande número de mortos e de “experimentos” como o uso do napalm e de outras armas químicas ou bacteriológicas, da testagem de novos aviões ou helicópteros, etc.,...
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