Repensando a textualidade

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Repensando a textualidade[1]




Maria da Graça Costa Val
FALE/UFMG
IV Fórum de Estudos Lingüísticos. Instituto de Letras da UERJ. 21/10/1999 (conferência)




O conceito de textualidade, desde os primeiros momentos da Lingüística Textual (LT), tem sido entendido como o conjunto de características que fazem com que um texto seja um texto, e não apenas uma seqüência defrases.
A LT começou a se desenvolver na Europa a partir do final do anos 60, sobretudo entre os anglo-germânicos, e tem se dedicado a estudar os princípios constitutivos do texto e os fatores envolvidos em sua produção e recepção. Paralelamente ao desenvolvimento dessa teoria, do final da década de 60 até nossos dias, têm se fortalecido e se ampliado, no campo da Lingüística, os estudosvoltados para fenômenos que ultrapassam os limites da frase, como o texto e o discurso, e interessados menos nos produtos e mais nos processos – a enunciação, a interlocução e suas condições de produção. Parece propício, portanto, neste momento, retomar o conceito de textualidade e repensá-lo, levando em conta contribuições advindas de lugares diferentes, como a Análise do Discurso, as teorias daenunciação, a Pragmática, a Análise da Conversação, os estudos sobre a língua falada, que nos convidam a incluir no campo de nossas reflexões fenômenos antes não considerados como propriamente lingüísticos.


Para atingir esse objetivo, um bom começo pode ser fazer um rápido panorama das tendências mais marcantes no interior da própria Lingüística Textual. Já em 1977, Maria-Elisabeth Conteapontou, no desenvolvimento da LT, três “momentos tipológicos”, isto é, três perspectivas de estudo, mais do que três etapas cronológicas, já que muitas reflexões e discussões ocorreram até simultaneamente, embora privilegiando enfoques e objetos diferentes.
A primeira vertente, caracterizada pela análise “transfrástica”, focaliza as relações entre os enunciados de uma seqüência,interessando-se por questões como a correferência, o emprego do artigo, a correlação entre os tempos e modos verbais, que hoje identificamos como atinentes à coesão textual. Essa vertente surge a partir da constatação de que há fenômenos sintáticos que não podem ser suficientemente entendidos quando se toma a frase como unidade máxima de análise: como explicar a presença de um artigo definido, ao invés de umindefinido, ou o emprego de determinado tempo e modo verbal, ou a própria ordem dos sintagmas numa sentença efetiva, por exemplo, sem considerar, pelo menos, a seqüência de enunciados que compõe o contexto lingüístico em que esses fenômenos ocorrem? Tanto em termos de regularidades estruturais quanto em termos de processos de geração de sentenças, tornou-se visível a existência de regras sintáticasque extrapolam a frase. Isso significa que, paradoxalmente, o interesse em explicar fenômenos do âmbito da frase levou a Lingüística a perceber a necessidade de ultrapassar esses limites, a voltar-se para as relações entre enunciados e a acabar assumindo o texto como objeto de estudo.
Um dos estudos importantes nesse momento foi o de Isenberg (1968), que, além de apontar questões sintáticascomo as mencionadas acima, que constituiriam motivações empíricas para o investimento numa gramática do texto, chama a atenção para as possibilidades de relações semânticas entre enunciados não expressas por marcas lingüísticas de superfície. O autor postula a existência de procedimentos de textualização (entre os quais ele aponta doze tipos), que regulariam as relações possíveis entre osenunciados e permitiriam aos falantes gerar e reconhecer estruturas textuais subjacentes. Por exemplo: Isenberg (1968, apud Conte, 1977:72) explica a possibilidade de se articularem as sentenças da seqüência “O menino foi ao cinema. Alguém lhe deu o dinheiro” pelo princípio de textualização que ele denomina “conexão de pressupostos”, o qual permite que se estabeleça entre elas uma relação semântica do...
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