Religião e democratização no brasil

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RELIGIÃO E DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL:

REFLEXÕES SOBRE OS ANOS 80**

JOANILDO A. BURITY *

Ao longo dos anos 80 a noção de democracia ocupou um terreno cada vez mais prominente, ao mesmo tempo em que foi alvo de intermináveis disputas. Um ponto de encontro para muitos atores sociais, como se pôde ver pela proliferação de movimentos de base, populares e de classes médias; o crescimento deorganizações intermediárias (ONGs), tentando se vincularem ao campo dos movimentos de base; a conflitiva trajetória de um discurso político crítico nas instituições religiosas (especialmente a Igreja Católica, mas também em igrejas protestantes); a nova onda de ativismo sindical, greves e negociações diretas, pondo em xeque o corporativismo na relação Estado/trabalhadores; e a criação do Partido dosTrabalhadores. Não menos importante, e ocupando o mesmo cenário em que os indicadores acima se moviam, foi a tortuosa construção da ordem política democrática a partir de um regime autoritário que se exauria, mas ainda demonstrava suficiente força para sobreviver à própria “morte”. Entre as mudanças que apontavam para novas formas de sociabilidade e ordenação social - aquilo que se chamou de"democracia de base" - e o processo político institucional que se definia como em transição para a democracia (política), um imenso terreno de disputa foi aberto. As tentativas de sutura, de normalização, e de disciplinamento do campo agonístico da construção democrática, mesmo dominadas pelo pólo da democracia política, insinuavam possibilidades de uma nova relação dos sujeitos coletivos einstitucionais com a matéria do político. Tomada como sintoma de uma transformação da política, a luta pela hegemonização de “democracia” expôs, nos anos 80, um dos momentos de manifestação do político, isto é, da dimensão constituinte dos ordenamentos sociais, que revela o real como produzido por relações de poder, antes que por cadeias de necessidade e causalidade “objetivas”.

Neste terreno instituinte,malgrado as qualificações que se queira interpor, seja quanto à pureza do processo democratizante, seja quanto à performance econômico-social da experiência da década, sugerimos ler os anos 80 em termos do papel articulatório desempenhado pelo discurso religioso[1] no surgimento desta fronteira representada pelos movimentos sociais, organizações não-governamentais, novo sindicalismo, PT, etc. Numtal registro se poderia captar uma das linhas de força do processo, e dar um tratamento adequado para a questão da contribuição dada pelo ativismo religioso ao processo de democratização.

Não se trata, entretanto, de oferecermos afinal a “verdadeira” explicação do processo de transição, e do papel nela jogado por cada um dos atores envolvidos. Cumpre insistir sobre a pluralidade irredutível dedimensões e caminhos do processo democratizante e sobre o caráter político (ou estratégico) das representações da necessidade, possibilidade e relevância, em luta pelo sentido do processo. Não um único nível ou ator privilegiado, mas múltiplas reentrâncias, conquistas parciais e reversíveis e descentramento das noções de espaço, tempo e intencionalidade, o que se dá a conhecer na experiência dosanos 80 é um desses momentos em que a trama histórica se mostra no processo de ser tecida. Diante de tal situação só podemos recolher fragmentos do tecido, antes que fossem inscritos num discurso da ordem, da normalização ou consolidação, e apontar a possibilidade de que o que é possa vir a ser de outra maneira. Aqui, um desses fragmentos - a trajetória do ativismo religioso nos anos 80 - nosservirá como um desses índices de que o presente esconde algo mais do que ele próprio pode controlar.

O que oferecemos a seguir são colocações contextuais. Isto nos exigirá desenvolver, ainda que de maneira indicativa, certos aspectos da experiência da transição, passando então à politização religiosa que acompanhou a democratização. Politização que se apresentou seja como redefinição dos termos...
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