Relações entre filosofia e teologia

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  • Publicado : 20 de abril de 2010
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Se nos debruçarmos na longa discussão tillichiana quanto à relação entre teologia e filosofia, parece ficar claro que não faz sentido fazer a pergunta “quem está certa, a teologia ou a filosofia?”. O que devemos fazer, como em todo fenômeno relacional, é verificar o momento ou a importância do tipo de relação à que as duas ciências estão submetidas de época para época e com quais critériospodemos fazer tal verificação. Talvez a maior importância de todo do pensamento de Tillich a este respeito não seja meramente a grande relevância de seu caráter normativo, mas muito mais, a impossibilidade de tratarmos esta questão sem antes declararmos as bases ou os pressupostos de que previamente lançamos mão ao tratá-la, e que determinarão em última análise a nossa visão.
Consideradas no universodas disciplinas metodológicas (inseridas no universo das ciências do pensamento, do ser e da cultura), a filosofia do sentido (Sinnphilosophie) é o fundamento de todo sistema das ciências; a metafísica é o esforço de expressar o Incondicional em termos de símbolos racionais; e a teologia é a metafísica teônoma. A teologia reivindica que o caráter teonômico do pensamento – ou seja, o pensamentocomo tal está enraizado no absoluto como o fundamento e abismo do sentido. A teologia toma como seu explícito objeto aquilo que é pressuposto implícito de todo conhecimento. Dessa forma, teologia e filosofia, religião e conhecimento estão mutuamente abraçados. Enfatizando a relevância existencial da relação entre filosofia e teologia, Tillich chega a dizer que “a filosofia existencial faz de um modonovo e radical a pergunta cuja resposta é dada à (e não pela) fé na teologia.”
A questão do relacionamento entre filosofia e teologia tem sido muito desdenhada ultimamente em nosso contexto contemporâneo, porque ela, em última análise, se relaciona com a questão da “filosofia primeira”, envolvendo o retorno à metafísica – uma questão considerada hoje como ultrapassada e fora de moda. O prefixomágico “meta” na palavra metafísica é empregado para designar algo fora ou além da experiência humana, aberto à imaginação arbitrária, apesar de todo o mundo saber que significa apenas o livro que vem depois da física na coleção de Aristóteles.
Quanto a isso, devemos dizer o seguinte: a questão do ser, que é a questão da filosofia primeira ou fundamental, refere-se ao que está mais próximo denós do que qualquer outra coisa. Trata-se de nós mesmos na medida em que somos e na medida em que sendo seres humanos, somos capazes de perguntar o que significa esse fato de que somos. Já é tempo sim de abandonarmos a palavra “metafísica”, abusada e deformada. Mas hoje a negação da metafísica transformou-se em desculpa para propósitos pesados de modelos desarticuladores das possibilidades humanase para a terrível superficialidade do pensamento, em face do qual a mitologia primitiva se mostra extremamente profunda.
Outra objeção atual contra a importância da questão do relacionamento entre filosofia e teologia é feita alegando-se que não é a ontologia a filosofia primeira, mas sim a epistemologia. Esta alegação está correta apenas parcialmente, pois a epistemologia não pode pretenderexistir sem a base ontológica. Não se pode ter o aparecimento sem o ser que aparece, ou o conhecimento sem o ser que é conhecido, ou a experiência sem o ser que é experimentado. Se fosse assim, aparecimento ou experiência haveriam de se transformar em novas palavras para “ser”, e o problema do ser passaria a ser discutido em termos diferentes.
Uma terceira objeção para a importância dorelacionamento entre filosofia e teologia está na crítica cética de que o ser humano não tem possibilidade alguma de alcançar esta suposta estrutura e significado do ser, e que o ser se revela na multiplicidade dos seres e no mundo no qual todos se ligam e se relacionam, mas tudo o que há são multiplicidades. Esta objeção está querendo dizer: “olhem para os minerais e para as flores, para os animais e...
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