Reflexões sobre a relação entre morte e angústia

Páginas: 9 (2044 palavras) Publicado: 26 de novembro de 2011
Reflexões sobre a relação entre morte e angústia

“Não sei se é verdade que toda angústia é de morte, como já acreditei. Mas como toda vida é mortal, como se escaparia à angústia?” – diz André Comte-Sponville. Uma forma de traduzir essa afirmação seria: Não sei se toda angústia é causada pela morte, mas a morte sem dúvida causa angústia. Sempre desconfiei dessa idéia que o autor justamente nãoafirma, deixando em suspenso. Às vezes é possível ler a afirmação de que toda angústia seria de morte nas entrelinhas de alguns textos existencialistas. A idéia sempre me pareceu arbitrária, contrária mesmo aos princípios do próprio existencialismo. Se nenhum sentido está dado, como definir um sentido prévio e universal para a morte? Será que esta não poderia ser percebida de outras maneiras, nãonecessariamente contorcidas pelo terror?
À afirmação não feita no texto, eu contrapunha secretamente ao longo da leitura a questão do suicídio. Me parece que o amálgama entre morte e angústia esmaga um problema fundamental: o desejo de morte. Por outro lado, o autor nos fornece pistas para se pensar este tema quando diz que a angústia nos lembra “que não há vida sem risco. Não há vida semsofrimento. Não há vida sem morte. A angústia marca nossa impotência, é nisso que é verdadeira também, e definitivamente.” Quando o autor relaciona a angústia não só com a morte, mas com o sofrimento, com o risco, com a impotência, balanço a cabeça, assentindo. Talvez essa concepção abra horizontes para se pensar a questão do suicídio.
Uma idéia me ocorre: e se a angústia estivesse relacionada não coma morte do corpo, mas com a morte do ser? E se cada perda fosse uma pequena morte, a morte de alguém, de uma profissão, de uma imagem, de uma esperança? Em última instância, o medo da morte não seria o medo de perder o que se é? Talvez o suicida seja aquele para quem a vida já constitui uma morte contínua, tão dolorosa e dilacerante que a morte derradeira lhe acena convidativa, com um buquê deflores murchas na mão e a promessa de uma paz imóvel nos lábios. Mas que morte em vida seria esta, que o atormentaria mais que a morte eterna?
Um trecho do texto me desperta uma idéia ainda sonolenta, quando diz que Narciso estremece diante da sabedoria, com medo de perder as miragens que são ele mesmo. Afinal, não é significativo que o narcisismo apareça sempre ligado a Thanatos? Que Narciso,procurando se ver melhor, tenha se precipitado em direção à própria morte? Talvez o narcisismo nos ajude a compreender melhor o(s) sentido(s) da morte no suicídio e, por conseguinte, a relação existente entre a angústia e a morte.
Uma hipótese me advém: que toda definição restrita do ser incluiria, latente e pulsante, a ameaça de sua própria morte e, em última instância, a atrairia para si. Issoporque toda definição dual, boa ou má, acarreta o risco de se desfigurar em seu oposto. Ainda que algo seja bom, se pode apenas ser ou bom ou mau, será assombrado pelo mal a cada passo em falso. Pois que é o bom, senão o ruim, se sua bondade vacila? Se pensarmos o ser como identidade, como algo que permanece idêntico a si mesmo, toda modificação é uma ameaça de extinção do ser. Pode-se postular que tale tal mudança é superficial e não afeta a essência do ser, mas não se pode escapar à angústia que cada modificação gera: o ser conseguirá resistir?
Por outro lado, quando compreendemos a vida na dimensão do e – bom e ruim, prazer e desprazer, ser e não ser -, há a possibilidade de que nenhum dos pólos reine absoluto. Porque ainda que insistamos em coroar a saúde, a beleza, a felicidade, sua irmãgêmea amargurada, feia e manca estará sempre à espreita para usurpar o trono. É preciso afirmar que o ser inclui o não ser, que a vida carrega a morte dentro de si, que a morte é expressão da vida.
Mas como pode algo ser e não ser, se toda a lógica depõe contra esse absurdo? Acontece que a lógica esqueceu o tempo, e criou uma série de unidades etéreas, perfeitas e absolutamente inexistentes....
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