Reciclagem

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  • Publicado : 11 de junho de 2012
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A Cultura da Reciclagem
Marcus Bastos

O carrinho do supermercado raspa no canto do refrigerador e as latas de Pepsi twist chacoalham em loop sincronizado com o ritmo da música que escapa pelas frestas entre o fone e o ouvido propriamente dito. No apartamento, enquanto o telefone não toca e os arquivos no Shareaza não completam o destino até o HD, um ritual comum a adeptos de todas as tribos esubtribos espalhadas pelas ruas da cidade: separar o lixo orgânico, não orgânico, plástico, metal, papel. A cena, familiar em sua trivialidade, vai além da mera descrição de um sábado qualquer antes do sushi com saquê, depois cinema, depois balada. O texto que aqui se inicia é justamente uma tentativa de entender que relações são possíveis entre momentos cotidianos como o descrito e a formulaçãodo conhecimento que circula nos diversos circuitos que o institucionalizam. É o retrato de um processo que envolve entusiasmo, decepção, rigidez, preguiça e outros. Sentimentos humanos, ocultos entre linhas que querem relacionar os vários estímulos que fazem o habitante das metrópoles contemporâneas pensar e agir assim ou assado. Para que serve, afinal, o conhecimento senão para amenizar o fato deque, segundo Kenneth Branagh (BRANAGH, 1992), não existem adultos, apenas crianças com dívidas no banco.

A favor dessa relação estranha, um método esquisito que permite perceber como um dos grandes temas da crítica cultural contemporânea, o hibridismo das manifestações simbólicas, também pode ser aplicado ao estudo da fórmula de marketing preferida da indústria alimentícia, que inunda asprateleiras de supermercado com misturas pré-fabricadas de guaraná com laranja, suco de abacaxi com hortelã, doritos com bacon e outros primores de uma culinária tão artificial quanto a inteligência que os cientistas cognitivos buscam em suas pesquisas. A coincidência revela que há mais coisas entre o estado de uma época e as várias formas de transformá-la em livros, CDs e DVDs do que supõe a nossa vã— e às vezes pouco disposta a investigar o que acontece fora do mundo do pensamento reconhecido pelos pares — filosofia.

Começa aqui o terceiro tratamento de um texto que é muito anterior à sua escrita propriamente dita. Talvez a questão central nem mesmo esteja presente no eixo evidente de sua organização, o que ficou claro nessa oportunidade de voltar ao tema.[1] Daí o gesto pouco recomendadode afastar do leitor o tema central do artigo, obrigando-o à leitura de uns poucos parágrafos resultantes da busca das motivações para a tentativa esboçada adiante, de associar o universo fugaz — intoxicado por modas e outras formas mundanas de preservar o imediato — das diversões, eletrônicas ou não, que fazem o fim de semana nas cidades do mundo, ao universo compenetrado — enrijecido por normas eoutras formas livrescas de mediar o que se pretende preservado — das universidades e outras instituições dedicadas à construção, ao acúmulo, à circulação dos saberes.

“E talvez seja uma história chata, mas você não precisa ouvir, ela disse, porque ela sempre soube que ia ser daquele jeito”: Breat Easton Ellis, em Os jogos da atração (ELLIS, 1989). Romance escrito na mesma época em que oslivros sobre Internet e mídias digitais faziam referências constantes ao Memex e à Arpanet em intensidade semelhante com que livros de história contam invasões, batalhas e guerras. Mas a história das mídias digitais não precisa ser necessariamente o resgate das pesquisas financiadas pelo governo com fins militares, assim como os livros de história nem sempre precisam ater-se às grandes narrativas,deixando de lado fatos cotidianos igualmente significativos. Buscando as raízes da cultura digital em outras paragens seria possível encontrar inúmeras manifestações de igual importância histórica e maior relevância cultural.[2]

A história da Internet também é a história de como parte da contracultura que se consolida dos anos 60 em diante substitui o “drop out” pelo “plug in”, ao colocar suas...
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