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Introdução à lógica 
Desidério Murcho 
Universidade Federal de Ouro Preto 

O papel da lógica na filosofia 
Estudar filosofia é muito  diferente de estudar história ou física. Estudar estas 
disciplinas  é  sobretudo  uma  questão  de  compreender  os  resultados  estabelecidos 
pelos  historiadores  e  pelos  físicos,  e  raciocinar  sobre  isso.  Mas  em  filosofia  não  há resultados desse gênero para que possamos limitar‐nos a compreendê‐los. 
Os  problemas  mais  importantes  da  filosofia  estão  em  aberto;  ou  seja,  não  há 
um consenso entre os especialistas quanto à sua solução. Para que o estudo da filo‐
sofia seja compensador, não podemos limitar‐nos a compreender as idéias ou pers‐
pectivas  opostas  dos  filósofos;  temos  de  aprender  também  a filosofar.  Filosofar  é 
discutir criticamente os problemas, teorias e argumentos da filosofia. 
Porque  discutir  criticamente  é  argumentar,  é  importante  estudar  a  própria 
argumentação.  Ora,  a  lógica  estuda  alguns  aspectos1  da  argumentação;  estuda 
aqueles aspectos da argumentação que fazem uns argumentos serem bons e outros maus. Por isso, é importante estudar lógica em filosofia. 
Na  verdade,  é  importante  estudar  lógica  porque  todos  precisamos  de  argu‐
mentar, mesmo que não queiramos fazer filosofia. Daí a resposta de Epicteto (c. 55‐
135 d.C.) quando lhe perguntaram se a lógica era necessária: 
“Queres  que  te  prove  isso?”  A  resposta  foi  “Sim”.  “Então  tenho  de  usar  uma  for‐
ma  demonstrativa  de  discurso”.  O  interlocutor  aceitou.  “Como saberás  então  se 
te  estou  a  enganar  com  um  sofisma?”  E  quando  o  homem  ficou  em  silêncio, 
Epicteto  disse:  “Estás  a  ver?  Tu  próprio  admites  que  a  lógica  é  necessária,  pois 
sem ela nem podes determinar se a lógica é necessária ou não.” 
Epicteto, Discursos, Livro 2, trad. de Desidério Murcho, cap. 25 

Epicteto  está  a  defender  que  a  própria  pergunta  que  lhe fizeram  pressupõe 
que  é  necessário  estudar  lógica.  Pois  para  responder  a  essa  pergunta  é  preciso 
argumentar;  mas  se  não  soubermos  lógica,  não  saberemos  se  os  argumentos  apre‐
sentados  ao  responder  são  bons  ou  não.  Isto  porque  a  lógica  estuda  precisamente 
isso: se os argumentos são bons ou não e porquê. 
1

  A  lógica  não  estuda,  contudo,  todos os  aspectos  da  argumentação;  não  estuda,  por  exemplo,  os 
aspectos psicológicos, retóricos, sociológicos ou históricos da argumentação. 

Universidade Federal de Ouro Preto
Introdução à lógica

Significa  isto  que  quem  não  sabe  lógica  não  sabe  argumentar?  Não.  Significa 
apenas  que  não  sabe  argumentar  tão  bem  como  saberia  se  soubesse  lógica.  Tal 
como  uma pessoa  pode  falar  sem  saber  gramática,  mas  não  saberá  falar  tão  bem 
quanto  saberia  se  soubesse  gramática.  Um  conhecimento  meramente  intuitivo  da 
gramática é com certeza suficiente para a nossa vida quotidiana, mas dificilmente o 
será  para  um  poeta  ou  para  um  romancista  ou  para  um  jornalista.  Analogamente, 
um  conhecimento  meramente  intuitivo  da argumentação  é  com  certeza  suficiente 
para  a  nossa  vida  quotidiana,  mas  dificilmente  o  será  para  um  filósofo  porque  em 
filosofia  fazemos  um  uso  intenso  da  argumentação:  estamos  o  tempo  quase  todo  a 
discutir idéias porque a discussão de idéias é o método central da filosofia. 

Argumentos 
Chama‐se  “argumentação”  a  um  encadeamento  de  argumentos.  Mas  o  que é 
um argumento? 
 Um  argumento  é  um  conjunto  de  proposições  em  que  se  pretende  justificar 
ou  defender  uma  delas,  a  conclusão,  com  base  na  outra  ou  nas  outras,  que 
se chamam premissas. 

Um  argumento  tanto  pode  ter  só  uma  premissa,  como  várias.  Contudo,  só 
pode ter uma conclusão. 
Vejamos dois exemplos de argumentos muito simples: ...
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