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O preço de uma decisão errada | 20.05.2005
Os vícios e as armadilhas que levam até as melhores empresas a perder bilhões com escolhas infelizes
Por Cristiane Correa e Cristiane Mano
EXAME Nos planos da Mercedes-Benz, o Brasil era o destino perfeito para sua primeira fábrica de automóveis fora da Alemanha. Eram os anos 90, e previa-se um crescimento da indústria automotiva jamais visto poraqui. A estrela de três pontas da Mercedes, um símbolo inequívoco de sofisticação, certamente seduziria compradores dispostos a adquirir produtos mais luxuosos. Mas era preciso correr, pois os concorrentes também estavam de olho no mercado promissor. Em 1999, a montadora inaugurou, enfim, uma fábrica em Juiz de Fora, Minas Gerais, a um custo de 820 milhões de reais. A expectativa era produzir 70 000carros por ano. O principal produto da fábrica seria um modelo compacto, o Classe A.
Esse era o sonho.
Em quase seis anos de atividade, a fábrica jamais atingiu a produção estimada -- ao todo, foram produzidos 61 000 veículos. O fracasso levou a matriz a anunciar recentemente que a produção do Classe A será cancelada a partir de setembro. Paralelamente, o plano de trazer um novo modelo para afábrica -- chamado smart formore -- também foi descartado. Numa espécie de operação "tapa-buraco", a Mercedes vai tentar ressuscitar a montagem de outro modelo, o Classe C, que já vem semi-pronto da Alemanha. Com cerca de 1 100 funcionários -- cujos salários somam quase 1,6 milhão de reais por mês --, a fábrica de Juiz de Fora hoje trabalha apenas 20 horas por semana. Até fevereiro de 2006, umacordo coletivo impede a montadora de fazer demissões em massa. Depois disso, ela corre sério risco de ser fechada. "As chances de sobrevivência são mínimas", afirma um ex-executivo da subsidiária da DaimlerChrysler, dona da marca Mercedes-Benz.
Essa é a realidade.
O que separa o sonho de grandeza da realidade angustiante é uma sucessão de decisões equivocadas tomadas na matriz daDaimlerChrysler, em Stuttgart, na Alemanha. Não é possível dizer que os executivos da montadora tenham errado por inexperiência ou incompetência. As duas empresas que em 1998 deram origem à DaimlerChrysler -- a alemã Daimler-Benz e a americana Chrysler -- são corporações seculares, donas de marcas poderosas e de um histórico de sucesso. Por várias razões, à época aparentemente corretas, a DaimlerChrysler decidiuerguer uma fábrica no Brasil. Tomar decisões erradas é um risco a que todas as empresas estão sujeitas. Inclusive -- e sobretudo -- as bem-sucedidas. Isso é o mais assustador. Inebriadas pelas conquistas, elas acabam por se tornar autoconfiantes demais e costumam deixar de lado a disciplina necessária para a tomada de decisões. O mercado estima as perdas acumuladas na fábrica de Minas Gerais ematé 500 milhões de dólares. A DaimlerChrysler, que preferiu não dar entrevista a esta reportagem, não comenta essa estimativa. Para efeito de comparação, o lucro mundial da empresa em 2004 foi de 3,3 bilhões de dólares.
Arrogância, autoconfiança, precipitação, imediatismo, indisciplina, ganância e imitação da manada. Vários desses elementos estiveram presentes na decisão de construir a fábrica emJuiz de Fora. A subsidiária brasileira não foi consultada sobre o assunto. Os executivos da matriz acharam que poderiam definir todo o projeto. Para isso, contrataram o escritório alemão da consultoria Arthur D. Little para fazer um estudo de viabilidade industrial. A filial brasileira da Arthur D. Little não foi ouvida. "Esse pessoal vinha para cá sem saber nem o que era ICMS", afirma umex-executivo da DaimlerChrysler. Os alemães explicavam seu entusiasmo e sua pressa com previsões de crescimento espetaculares. A fábrica mineira foi considerada a mais moderna da companhia no mundo durante três anos consecutivos. Infelizmente, esse colosso de tecnologia tem tido uma ociosidade de quase 95%. "Ao contrário das concorrentes, a Mercedes apostou num modelo desenvolvido na Europa, sem...
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