Putaria

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 24 (5978 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 26 de novembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
MANEIRAS DE SER, MANEIRAS DE SENTIR
DO INDIVÍDUO HIPERMODERNO
Claudine Haroche

Diretora de
Pesquisas do CNRS;
Membro do Cetsah
(Centro de Estudos
Interdisciplinares:
Sociologia,
Antropologia e
História), na École
d’Hautes Etudes en
Sciences Sociales,
Paris.

RESUMO: A fluidez das sociedades contemporâneas, intrinsecamente
destituídas de limites, provoca modificações dasestruturas, suscetíveis de colocar em causa a possibilidade mesma de estruturação, até
mesmo da existência do eu. Indaga-se, aqui, se as maneiras — mais
fundamentalmente a capacidade de sentir —, declinaram “em se sentir”, separadas doravante do fato de experimentar sentimentos, não
seriam agora sinônimo de sensação.
Palavras-chave: Indivíduo, sentido, sentimento.

Tradução da autora

ABSTRACT:Way of being, hypermodern individual’s way of feeling.

The fluidity of the contemporary society, intrinsically destituted by
limitations, induces structural modifications, susceptible of putting
in grounds the same possibility of structuralization, even so at the
existence of the I. It is questioned here if the reasons — most fundamentally the capacity of feeling — declined to “feeling”,separated
from the experimentation of feeling, wouldn’t them be, now, synonym of sensation.
Keywords: Individual, sense, feeling.

“Quando nos preocupamos, como eu há meio século, com o problema da relação entre
indivíduo e sociedade, revela-se de forma evidente que esta relação não é fixa.”
N. ELIAS, La société des individus

E

m 1938, Mauss publica “Uma categoria do espírito humano: anoção de pessoa, a noção de ‘eu’”, texto fundador,
que foi lido, comentado e criticado e fomentou numerosos
outros escritos.1
Interessado na história social da “noção de pessoa e da noção de eu”, Mauss formulou o problema em toda sua exten1

Dentre os textos que lhe foram dedicados, destacamos: Carrithers,
Collins e Lukes (org.) (1985), sobretudo os artigos de Louis Dumont,
“A modifiedview of our origins: the Christian beginnings of modern
individualism”, p.93-123, e de Charles Taylor, “The person”, p.257-282.

Á gora v. VII n. 2 jul/dez 2004

221-234

222

CLAUDIN E HAROCHE

são, mas de forma muitas vezes imprecisa, intuitiva — será criticado por isso —
, e profundamente estimulante. Escreve:
“Desculpem-me se, resumindo certo número de pesquisas pessoais e inúmerasopiniões de que podemos traçar a história, adianto mais idéias do que provas [...].
É evidente, sobretudo para nós, que jamais existiu um ser humano que não tenha
tido o sentido não apenas do seu corpo, mas também de sua individualidade ao
mesmo tempo espiritual e corporal.” (MAUSS, 1950/1983, p.359)2

Mauss afirma que “a noção de pessoa, longe de ser uma idéia primordial,
inata eclaramente inscrita [...] no mais profundo de nosso ser, [...] é ainda hoje
imprecisa, necessitando de maior elaboração, [que] ela se constrói lentamente,
se clarificando, se especificando, se identificando com o conhecimento de si,
com a consciência psicológica [...]” E prossegue, formulando um questionamento extremamente contemporâneo: “Quem sabe se esta ‘categoria’ que todos
acreditamos fundadaserá sempre reconhecida como tal?” (1950, p.359/362).
Uma observação preliminar: neste texto não distinguiremos o eu das noções
de pessoa, personalidade, caráter, indivíduo, individualidade. Todos estes termos
referem-se a um mesmo campo paradigmático, relativamente impreciso e movediço, conforme encontramos em vários autores, por exemplo (para citar apenas
alguns) em Mauss (1950/1983),Durkheim (1894/1988), Simmel (1908/1999)
ou Elias (1987/1991).3
O que interessa aqui é a existência de um desengajamento, fato sublinhado de
forma reiterada em relação às sociedades contemporâneas: levanto a hipótese de
que este desengajamento — este descompromisso resultante das sensações contínuas exercidas sobre o eu — influencia profundamente e de maneira insidiosa
as relações entre sensação,...
tracking img