Psicoterapia existencial

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Análise Psicológica (2006), 3 (XXIV): 289-309

Introdução à psicoterapia existencial
JOSÉ A. CARVALHO TEIXEIRA (*)

1. INTRODUÇÃO

Com as influências da fenomenologia e do existencialismo desenvolveram-se vários modelos terapêuticos que podem ser genericamente designados por psicoterapia existencial e definidos como métodos de relação interpessoal e de análise psicológica cujo objectivo é o defacilitar na pessoa do cliente um auto-conhecimento e uma autonomia psicológica suficiente para que ele possa assumir livremente a sua existência (Villegas, 1988). Importa desde já referir que não se constituem como técnicas de cura da perturbação mental, mas sim como intervenções cuja finalidade principal é ajudar o crescimento pessoal e facilitar o encontro do indivíduo com a autenticidade da suaexistência, de forma assumi-la e a projectá-la mais livremente no mundo. Em qualquer caso, o centro é o indivíduo e não a perturbação mental. Esta, quando presente, é vista como resultado de dificuldades do indivíduo em fazer escolhas mais autênticas e significativas, pelo que as intervenções terapêuticas privilegiam a auto-consciência, a auto-compreensão e a auto-determinação. Do encontro entre afenomenologia, o existencialismo, a Psicologia e a Psicopatologia resultou um amplo movimento de ideias, reflexão, investigação e intervenção (Jonckeere, 1989). Trata-se de um

(*) Médico Psiquiatra. Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa. Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Existencial.

conjunto heterogéneo de possibilidades de intervenção terapêutica de basefenomenológico-existencial, uma pluralidade de métodos e de teorias que, contudo, podem classificar-se em dois grupos diferentes: a psicoterapia experiencial e a psicoterapia existencial. As diferenças podem estabelecer-se ao nível dos seus objecto, objectivos e propostas ou modelos de intervenção (Quadro 1). As diferenças essenciais entre psicoterapia experiencial (humanista) e psicoterapia existencial situam-se naforma como conceptualizam a capacidade do indivíduo para o processo de mudança, nos conceitos-chave que estão em jogo e, ainda, na finalidade da intervenção (Villegas, 1989). A finalidade da intervenção define-se pela auto-descoberta (conhecer-se e compreender-se) na psicoterapia experiencial e pela construção mais autêntica e significativa da sua existência na psicoterapia existencial (Quadro 2). Napsicoterapia existencial enfatizam-se as dimensões histórica e de projecto e a responsabilidade individual na construção do seu-mundo. Visa a mudança e a autonomia pessoal. Contudo, vários autores definem a finalidade principal da psicoterapia existencial de diferentes modos: procura de si próprio (May, 1958); procura do sentido da existência (Frankl, 1984); tornar-se mais autêntico na relaçãoconsigo próprio e com os outros (Bugental, 1978); superar os dilemas, tensões, paradoxos e desafios do viver (Van Deurzen-Smith, 2002); facilitar um modo mais autêntico de existir (Cohn, 1997); promover o encontro consigo próprio para assumir a sua existência e projectá-la mais livremente no mundo (Villegas, 1989) e aumentar a auto-cons289

QUADRO 1

Diferenças entre psicoterapia experiencial epsicoterapia existencial
PSICOTERAPIA EXPERIENCIAL Influências Objecto Dimensão Objectivo Método Dinâmica Psicológica Kierkegaard / Buber / William James Vivência Actual Crescimento Heurística Emoções PSICOTERAPIA EXISTENCIAL Husserl / Heidegger / Sartre Existência Histórica Autonomia Hermenêutica Constructos pessoais

QUADRO 2

Diferenças entre psicoterapia experiencial e psicoterapia existencialPSICOTERAPIA EXPERIENCIAL Capacidade de mudança Conceitos-chave Finalidade Concretização de potencialidades Actualização. Descoberta Autodescobrir-se PSICOTERAPIA EXISTENCIAL Responsabilidade da liberdade de escolha Construção. Projecto Construir a sua existência

ciência, aceitar a liberdade e ser capaz de usar as suas possibilidades de existir (Erthal, 1999). No essencial, a perspectiva...
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