Psicologia

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Cad. Saúde Pública vol.14 n.3 Rio de Janeiro July/Sept. 1998
Foucault, Derrida e a História da Loucura: notas sobre uma polêmica
|PINIÃO OPINION |


André de Faria Pereira Neto
Resumo A publicação do livro Folie et Déraison. Histoire de la Folie à l'âgeClassique (1961), de Michel Foucault, promoveu um debate entre o autor e o filósofo Jacques Derrida, durante os anos 60/70. Derrida criticou a proposta metodológica e a organização da História da Loucura, apresentadas por Foucault, no prefácio da primeira edição. Essa polêmica parece ter motivado o autor a retirar, da segunda edição, o prefácio que abria a primeira versão do livro. O objetivo desteartigo é analisar alguns pontos presentes nesta controvérsia. Além disso, ele apresenta uma agenda de pesquisa para o entendimento das razões que levaram Foucault a tomar tal atitude.
Palavras-chave Saúde Mental; Filosofia; História da Ciência
Introdução
Em 1961, Michel Foucault publicou em Paris Folie et Déraison. Histoire de la Folie à l'âge Classique, um livro que se tornou obra de referênciana área da filosofia, história, psicologia, saúde mental e coletiva. Em 1963, no Colégio Filosófico, Jacques Derrida proferiu uma conferência em que criticava esta obra de Foucault, particularmente seu prefácio. Com a publicação de sua segunda edição francesa (1972), Foucault retira o prefácio da primeira versão e responde, em um apêndice, às críticas feitas por Derrida. A partir do final dadécada de 70, o livro passou a ser traduzido para diversos idiomas, e todas estas edições saíram amputadas. Faltava-lhes o prefácio.
No nosso entender, a periodização adotada e a metodologia proposta por Foucault para a elaboração de uma história da loucura foram as duas questões, presentes no prefácio, que polarizaram as críticas de Derrida. Houve ainda uma polêmica entre os dois pensadorescontemporâneos sobre a interpretação que Foucault deu às Meditações, de Descartes. Como esta controvérsia não pertence ao prefácio, preferimos acompanhar, neste artigo, a discussão sobre a periodização e a metodologia adotadas por Foucault na História da Loucura. Por fim, propomos uma agenda de pesquisa sobre este interessante episódio da história das idéias contemporâneas.
A periodização da História daLoucura
A visão de Foucault
No prefácio da primeira edição, Foucault defende a idéia de que a maneira de o homem lidar com a loucura modificou-se significativamente no século XVIII. Ele afirma:
"A constituição da loucura como doença mental, no fim do século XVIII, atesta um diálogo rompido, dá 'a separação como fato consumado', (destaque nosso) e enterra no esquecimento todas estas palavrasimperfeitas, sem sintaxe fixa, um pouco balbuciantes, na qual se dava a troca da loucura e da razão. A linguagem da psiquiatria, que é o monólogo da razão sobre a loucura, só se pode estabelecer sobre tal silêncio" (Foucault, 1961:IV).
Ele justifica esta afirmativa recuperando a maneira pela qual o homem se relacionava com a loucura desde a Antigüidade Clássica, até meados do século XVIII.
"Os gregosrelacionam-se com alguma coisa que chamam hybris. Esta relação não era somente de condenação; (...) mesmo se seu discurso nos é transmitido já 'envolto na dialética tranqüilizadora de Sócrates' (destaque nosso). Mas o logos grego não tinha contrário" (Foucault, 1961:IV).
Até o final do século XVII, segundo Foucault, loucura e razão não estavam ainda separadas. Não havia um vazio entre elas.Loucura e não-loucura, razão e 'des-razão' estariam confusamente implicadas. Para Foucault, durante a Época Moderna, o renascimento científico, associado à filantropia, buscou progressivamente cercar a loucura. Essa tendência se deu dentro da ordem absolutista. Assim ocorreu a passagem da experiência medieval da loucura para a atual, que a confina com o estatuto de doença mental.
Para Foucault,...
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