Psicanalise

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Análise Psicológica (2003), 2 (XXI): 175-183

Contratransferência: Uma revisão na literatura do conceito
LEOPOLDO GONÇALVES LEITÃO (*)

1. INTRODUÇÃO

Coube a Freud o mérito de ter sido o primeiro a identificar e a descrever o fenómeno da contratransferência. Dos seus comentários sobre este assunto, procederam correntes divergentes que caracterizaram o pensamento e a teorizaçãosubsequentes. A sua sistematização, efectuada por Kernberg (1985), Jacobs (1999), e por nós corroborada, comporta duas abordagens. A clássica, que tem como base a tese central de Freud – que remete para a noção de que a contratransferência actua como um impedimento à compreensão (uma forma de resistência inconsciente do analista, um obstáculo – a ser removido) e bloqueia o progresso (e a credibilidade dapsicanálise enquanto disciplina científica). Como expoentes principais desta abordagem evidenciam-se autores como: Reich, Glover, Fliess e, com algumas reservas, Gitelson. E a perspectiva oposta, que advoga o seu uso técnico como instrumento de compreensão do inconsciente do paciente, indispensável no tratamento analítico. Aqui encara-se a contratransfe-

(*) Licenciado em Psicologia na Área deClínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa.

rência como um fenómeno «total», uma reacção emocional total do psicanalista para o paciente, durante a situação terapêutica. Ilustram-se como autores principais: Cohen, Fromm-Reichmann, Heimann, Racker, Weigert, Winnicott e, em parte, Thompson. Enquanto Little, ao defini-la, se aproximou da abordagem clássica, o uso que esta autoradeu à contratransferência, acercou-se mais da ala «radical» da segunda abordagem supra referida. Menninger e Orr ocupam uma posição intermédia. Distintamente, Louise de Urtubey (1994, cit. in Duparc, 2001) propõe uma organização teórica que discrimina quatro grupos principais de teorias. O primeiro corresponde às teorias clássicas – a contratransferência é vista com incredulidade e considerada comoum resíduo não analisado do analista, que deve ser controlado através da neutralidade e do silêncio. Aqui englobam-se autores como: Glover, Numberg, Ida Macalpine, Annie Reich, Robert Fliess, Greenson, Schafer e Sandler. O segundo, no qual a contratransferência é vista como a totalidade das emoções e sentimentos que o paciente faz surgir no analista. Estas permitem-lhe compreender o paciente. Osseus protagonistas, para além de Ferenczi, são maioritariamente autores britânicos, tais como: Strachey, Balints, Winnicott, Bion, Searles e, em particular, Grinberg (um extremista desta posição). 175

O terceiro grupo é o da teoria da contratransferência neurótica mas útil. Enfatiza a auto-análise como um factor essencial no processo analítico. Louise de Urtubey deu exemplo de autores como:Margaret Little, Harold Searles e Pontalis. O quarto grupo é o preferido da autora e, segundo esta, da maioria dos autores franceses e de muitos autores da América do Sul, da actualidade. A contratransferência é considerada uma componente do campo analítico. Não é um problema, ou total, ou algo que deve ser submetido primeiro a auto-análise. Mas serve para compreender a situação analítica.Transferência e contratransferência são elementos que constituem uma unidade, um processo de trabalho que deve ser levado a cabo em conjunto.

2. FREUD: A GÉNESE DO CONCEITO

Em «Conselhos ao médico sobre o tratamento psicanalítico»4, para além de Freud (1912) ter instituído a análise didáctica, podem encontrarse ainda as origens da contratransferência como um fenómeno «total». Reconheceu que a análiseenvolve comunicação. Desta forma, a transmissão contínua e encoberta das mensagens inconscientes (em ambos os sentidos), entre os dois participantes, constituiu para este autor, uma parte essencial do processo analítico. Ao entender que o analista: «(...) deve voltar o seu próprio inconsciente, como um órgão receptor, na direcção do inconsciente transmissor do paciente (...)» e que «(...) deve...
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