Problema e as principais escolas filosóficas

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SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum á consciência filosófica. Campinas, SP: Autores Associados, 2007. P. 12-19

1. NOÇÃO DE PROBLEMA 1 Mas que é que se entende por problema? Tão habituados estamos ao uso dessa palavra que receio já tenhamos perdido de vista o seu significado. 1 .1. Os Usos Correntes da Palavra “Problema” Um dos usos mais frequentes da palavra "problema" é, porexemplo, aquele que a considera como sinônimo de questão. Nesse sentido, qualquer pergunta, qualquer indagação é considerada problema. Essa identificação resulta, porém, insuficiente para revelar o verdadeiro caráter, isto é, a especificidade do problema. Com efeito, se eu pergunto a um dos leitores: "Quantos anos você tem?", parece claro que eu lhe estou propondo uma questão; e parece igualmente claroque isso não traz qualquer conotação problemática. Na verdade, a resposta será simples e imediata. Não se conclua daí, todavia, que a especificidade do problema consiste no elevado grau de complexidade que uma questão comporta. Nesse caso estariam excluídos da noção de problema as questões simples, reservando-se aquele nome apenas para as questões complexas. Não se trata disso. Por mais queelevemos o grau de complexidade, mesmo que alcemos a complexidade de uma questão a um grau infinito, não é isso que irá caracterizá-la como problema. Se eu complico a pergunta feita ao meu suposto leitor e lhe solicito determinar quantos meses ou, mesmo, quantos segundos perfazem a sua existência, ainda assim não estamos diante de algo problemático. A resposta não será simples e imediata, mas nem porisso o referido leitor se perturbará. Provavelmente, retrucará com segurança: "Dê-me tempo para fazer os cálculos e lhe apresentarei a resposta"; ou então: "Uma questão como essa é totalmente destituída de interesse; não vale a pena perder tempo com ela". Note-se que o uso da palavra "problema" para designar os exercícios escolares (de modo especial os de matemática) se enquadra nessa primeiraacepção. São, com efeito, questões. E mais, questões cujas respostas são de antemão conhecidas. Isso é evidente em relação ao professor, mas não deixa de ocorrer também no que diz respeito ao aluno. Na verdade, o aluno sabe que o professor sabe a resposta; e sabe também que, se ele aplicar os procedimentos transmitidos na sequência das aulas, a resposta será obtida com certeza. Se algum problema ele tem,não se trata aí do desconhecimento das respostas às questões propostas mas, eventualmente, da necessidade de saber quais as possíveis consequências que poderá acarretar o fato de não aplicar os procedimentos transmitidos nas aulas. Isto, porém, será esclarecido mais adiante. O que gostaria de deixar claro no momento é que uma questão, em si, não é suficiente para caracterizar o significado dapalavra "problema". Isto porque uma questão pode comportar (e o comporta com frequência, segundo se explicou anteriormente) resposta já conhecida. E quando a resposta é desconhe- cida? Estaríamos aí diante de um problema? Aqui, porém, nós já estamos abordando uma segunda forma do uso comum e corrente da palavra. Trata-se do problema como não-saber. De acordo com essa acepção, problema significa tudoaquilo que se desconhece. Ou, como dizem os dicionários, "coisa inexplicável, incompreensível" (cf. CALDAS AULETE, 1970, p. 2.946). Levada ao extremo, tal interpretação acaba por identificar o termo "problema" com mistério, enigma (o que também pode ser comprovado numa consulta aos dicionários). No entanto, ainda aqui, o fato de desconhecermos algo, a circunstância de não sabermos a resposta adeterminada questão, não é suficiente para caracterizar o problema. Com efeito, se retomo o diálogo com o meu suposto leitor e lhe pergunto agora: "Quais os nomes de cada uma das ilhas que compõem o arquipélago das Filipinas?" (cerca de 7.100 ilhas) .Ou: "Quais os nomes de cada uma das Ilhas
1 SAVIANI, Dermeval, Educação: do senso comum à consciência filosófica. Campinas, SP: Autores Associados,...
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