Pragmatica

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Filologia e Lingüística Portuguesa, n. 2, p. 227-231, 1998.

RESENHAS
FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação. São Paulo, Ática, 1996, 318 p.
omecemos pelo fim. José Luiz Fiorin abre as “Conclusões” de seu livro As astúcias da enunciação dizendo que a conclusão é o momento de atar as pontas. Entretanto, estamos diante de um livro que ata pontas do começo ao fim. Se não, que é isso de seconseguir colocar em parcas trezentas páginas todo o sistema dêitico da língua? De ponta a ponta o livro mostra como o “corpo imaginário” (o espaço) e o “movimento fictício” (o tempo), submetidos ao “sujeito” (a pessoa), adquirem realidade e vida na linguagem. De ponta a ponta interagem sistema e discurso, instabilidade e estabilidade, possibilidades e realizações, ciência e arte, natureza ecultura, mito e História, afinal, barro e sopro. O livro tem veios que vão desembocando com precisão na submissão do homem às coerções das três categorias enunciativas que lhe permitem passar do sistema ao discurso, das possibilidades às realizações, enfim, da rigidez estéril à instabilidade criadora. A essa questão magna, Fiorin chega já na Introdução, por via da análise do próprio princípio dascoisas, aquele princípio no qual “erat uerbum” (p. 14). Nesse princípio das coisas, Fiorin instala o mito. Rebaixa, é verdade, o “uerbum” divino a mito, mas, por aí, acaba sacralizando todos os mitos. Quando Fiorin diz que, enquanto a ciência não puder explicar a origem das coisas e o seu sentido, haverá lugar para o pensamento mítico, ele está dizendo que sempre haverá lugar para o mito, o qual,entretanto – pelo que se deduz do que o próprio autor apresenta –, é mais do que simplesmente “dar conta de” novos anseios, ou novos desejos do ser humano; é dar conta do profundo das coisas, das ques227

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tões fundantes do espírito humano, do sentido da vida fora da História, da própria anticiência. O que este livro faz é arrancar o homem do mito, mostrando como toda a vida humanase marca pela temporalidade, pela espacialidade e pela actorialidade. Mas isso não é dito assim, sem que se sinta todo o peso dessa inscrição do homem na História. Numa passagem extremamente lúcida, o autor, ao interpretar a queda bíblica do homem, amarra o castigo recebido à hostilidade do tempo (já que a eternidade está perdida), à hostilidade do espaço (já que o paraíso está perdido) e àhostilidade da condição de pessoa (já que, perdido o paraíso, já não se recebam dádivas, perseguem-se conquistas). Essa passagem é uma amostra de como esse livro de Fiorin consegue fechar com absoluta consistência a sua tese central: a de que o homem está enredado nas limitações que a sua inscrição na História lhe impõe, e o seu discurso é o lugar onde tais limitações produzem sentido. A obra todaproclama um princípio básico que rege o uso da linguagem: o discurso é o lugar da instabilidade – o que permite a criação de efeitos de sentido –, mas essa instabilidade obedece a coerções de um sistema o que garante o próprio engendramento de sentido (ao menos até que o sistema mude). A ambivalência que a instabilidade implica não é desorganização, é a condição mesma para produção de sentido. Einstabilidade é, simplesmente, ausência de fixidez ou permanência, que se resolve, afinal, em condições precisas de realização. Mecanismos como debreagem e embreagem, que são, por excelência, produtores de efeito de sentido, prendem-se a princípios gerais organizados em um sistema. Assim, a combinação de um eu com um então e um aqui, instâncias de complicação entre categorias enunciativas e enuncivas,só aparentemente é anárquica, já que fica prevista a possibilidade de participação, nos eventos, tanto de actantes da enunciação como de actantes do enunciado. O equilíbrio na organização das categorias é perfeito, nesta obra. Na tarefa de fazer entender o processo de discursivização, o autor
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Filologia e Lingüística Portuguesa, n. 2, p. 227-231, 1998.

empreende muito precisamente a...
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