Por uma geografia do poder - claude raffestin

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Claude Raffestin POR UMA GEOGRAFIA DO PODER

Terceira parte

O TERRITÓRIO E O PODER

"A geografia política clássica é na verdade uma geografia do Estado, que seria necessário ultrapassar, propondo uma problemática relacionai, na qual o poder é a chave — em toda relação circula o poder que não é riem possuído nem adquirido, mas simplesmente exercido. Exercido por quem? Por atoressaídos dessa população que foi analisada antes do território. No entanto, esta prioridade não nos poupará.das acusações, pois rompe uma tradição bem estabelecida em geografia política. Mas por que a população em.primeiro lugar? Porque é a fonte de poder, o próprio fundamento do poder, por sua capacidade de inovação ligada a seu potencial de trabalho. Assim, é por ela que passam todas asrelações."...Claude Raffestin

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CAPÍTULO I O que é o território? I - Do espaço ao território Espaço e território não são termos equivalentes. Por tê-los usado sem critério, os geógrafos criaram grandes confusões em suas análises, ao mesmo tempo que, justamente por isso, se privavam de distinções úteis e necessárias. Não discutiremos aqui se são noções ou conceitos, embora nesses últimos vinte anostenham sido feitos esforços no sentido de conceder um estatuto de noção ao espaço e um estatuto de conceito ao território. O estatuto de conceito permite uma formalização e/ou uma quantificação mais precisa do que o estatuto de noção. É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um atorsintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao apropriar de um espaço concreta ou abstratamente (por exemplo, pela representação), o ator "territorializa" o espaço. Lefebvre mostra muito bem como é o mecanismo para passar do “espaço ao território: "A produção de um espaço, o território nacional, espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas redes, circuitos e fluxos que aí seinstalam: rodovias, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e bancários, auto-estradas e rotas aéreas etc.". O território, nessa perspectiva, um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a "prisão original'', o território é a. prisão que os homens constroem para si. Para um marxista, o espaço nãotem valor de troca, mas somente valor de uso, uma utilidade. O espaço é, portanto anterior, preexistente a qualquer ação. O espaço é, de certa forma, "dado" como se fosse uma matéria-prima. Preexiste a qualquer ação. "Local" de possibilidades,é a realidade material preexistente a qualquer conhecimento e a qualquer prática dos quais será o objeto a partir do momento em que um ator manifeste aintenção de dele se apoderar. Evidentemente, o território se apóia no espaço, mas não é o espaço. É uma produção, a partir do espaço. Ora, a produção, por causa de todas as relações que envolve, se inscreve num campo de poder. Produzir uma representação do espaço já é uma apropriação, uma empresa, um controle portanto, mesmo.se.isso permanece nos limites.de.um conhecimento. Qualquer projeto no espaço que éexpresso por uma representação revela a imagem desejada de um território, de um local de relações. Todo projeto é sustentado por um conhecimento e uma prática, isto é, por ações e/ou comportamentos que, é claro, supõem a posse de códigos, de sistemas sêmicos. É por

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esses sistemas sêmicos que se realizam as objetivações do espaço, que são processos sociais. É preciso, pois, compreenderque o espaço representado é uma relação e que suas propriedades são reveladas por meio de códigos e de sistemas sêmicos. Os limites do espaço são os do sistema sêmico mobilizado para representálo. Unimo-nos aqui ao pensamento de Wittgenstein ("The limits of my language mean the limits of my world"). Mas o próprio sistema sêmico é marcado por toda uma infraestrutura, pelas forças de...
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