Pesquisando o cotidiano

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Psicologia & Sociedade; 19 (1): 7-14; jan/abr. 2007

PESQUISANDO NO COTIDIANO: RECUPERANDO MEMÓRIAS DE PESQUISA EM PSICOLOGIA SOCIAL
Mary Jane P. Spink Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil RESUMO: Na reação à hegemonia da Psicologia Social norte-americana, nos anos setenta e oitenta, algumas experiências de pesquisas no cotidiano foram banidas da memória coletiva dadisciplina, seja por excesso de patrulhamento ideológico, seja pela identificação de toda a produção européia e norte-americana com a vertente mais individualista da Psicologia Social. Ao recuperar o interesse por observações no cotidiano, a Psicologia Social “desmemoriada” buscou na Antropologia o subsídio para pesquisas de “tipo etnográfico”. O objetivo deste texto é recuperar algumasexperiências de observação no cotidiano, autóctones à Psicologia Social, visando contribuir para o desenvolvimento de metodologias de observação de caráter psicossocial. PALAVRAS-CHAVE: observação; cotidiano; métodos de pesquisa. RESEARCHING THE FLUX OF DAILY LIFE: RECUPERATING MEMORIES OF RESEARCH IN SOCIAL PSYCHOLOGY ABSTRACT: In reaction to the hegemony of North American Social Psychology in theseventies and eighties, some research experiences on the flux of daily life were banned from the collective memory of the discipline because of excessive ideological patrol or due to identifying with the more individualistic trends of Social Psychology produced in Europe and North American. With the return of interest in observing quotidian life, Social Psychology, forgetting its own history, turned toAnthropology for subsidies for “ethnographic-like” research. The aim of this article is to recuperate some of the experiences of observation in quotidian life that are autochthonous to Social Psychology so as to contribute to the development of psychosocial observation research strategies. KEYWORDS: observation; quotidian; research methods. Creio que o título deste artigo merece algumas explicações.Primeiramente, pela ênfase em pesquisar no cotidiano, ao invés de pesquisar o cotidiano. Certamente não é o significado de cotidiano que está em pauta nesse esforço de diferenciação. O termo cotidiano tem um significado bastante cristalizado em dicionários e teorizações: é aquilo que acontece diariamente; que é comum a todos os dias; é o dia-a-dia que passa desapercebido em sua mesmice a não serpara autores, como Agnes Heller (1972) e Michel de Certeau (1996), que fizeram dessa mesmice o cerne de importantes reflexões sobre a vida em sociedade. A ênfase dada ao no procura marcar a diferença na postura metodológica. Se pesquisarmos o cotidiano, estabeleceremos a clássica separação entre pesquisador e seu objeto de pesquisa. Mas, se pesquisarmos no cotidiano, seremos partícipes dessasações que se desenrolam em espaços de convivência mais ou menos públicos. Fazemos parte do fluxo de ações; somos parte dessa comunidade e compartimos de normas e expectativas que nos permitem pressupor uma compreensão compartilhada dessas interações. Essas diferenças sutis emergem, em parte, de posicionamentos construcionistas sobre o conhecimento, abdicando dos universais e priorizando os conhecimentoslocais. Mas decorrem, também, de problemáticas enfrentadas no afã de pesquisar esses espaços fluidos que habitamos cotidianamente. Por exemplo, estamos iniciando uma pesquisa sobre controle e uso de tabaco em espaços públicos de convivência.1 O projeto prevê perambulações pelo quadrilátero em que se localiza a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mapeando os locais de uso público –restaurantes, bares, livrarias e bancas de jornal – em busca de indicadores de controle do tabagismo e, paralelamente, dos usos feitos do tabaco nesses espaços. Deparamo-nos, assim, com o problema do método. Há uma forte tentação de chamar esse tipo de pesquisa de etnografia ou de observação participante, embora haja também ciladas, uma das quais a apropriação malfeita de métodos que têm dono,...
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