Pesquisa obra les demoiselles d'avignon

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  • Publicado : 5 de novembro de 2011
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"O que há de melhor na arte dificilmente pode ser distinguido com a ajuda de leis; tem de ser descoberto por meio de contínua e séria experiência de observação e julgamento, com todos os riscos de erro”
(Schapiro, 2001: 16).
Arte é coisa mental!!
Essa famosa afirmação de Leonardo (1452-1519), no contexto da renascença italiana, reivindica para a arte, sobretudo para a pintura, o status deinstrumento de investigação filosófica e científica. Assim, o da Vinci entende que a arte não é uma atividade mecânica, mas um exercício do espírito cognoscente as mãos do pintor devem obedecer à mente que perscruta a natureza não só para interpretá-la, mas para inquirir a sua essência. Nessa atividade não há nada de intuitivo ou espontâneo e, portanto, trata-se de um experimento que exige método. Talcitação se tornaria, ao longo dos séculos seguintes e à revelia de Leonardo, o paradigma da arte e da ciência modernas, sobretudo daquela arte que inaugurando o século passado, exprimiu a desintegração do humano na dicotomia milenar entre mente e corpo. Ressalvando-se que a arte das primeiras décadas do século 20 oscilou entre vanguardas intelectualistas e sensorialistas (cf. Philadelpho Menezes,1994), não há como negar que, em linhas gerais, a cultura da modernidade pressupõe o triunfo do conhecimento intelectual-tecnicista sobre o saber sensível (cf. João-Francisco Duarte Jr, 2001). Leonardo, também neste sentido, adiantou-se quatro séculos.
Se a cultura da modernidade é a sujeição do sensível à autoridade da razão, não foi por acaso que Leonardo 'freqüentou' o divã de Freud (Umarecordação infantil de Leonardo da Vinci, 1910). A grande retrospectiva de Picasso em 1932 (236 telas agrupadas pelo próprio, inaugurada em 15 de junho na galeria Georges Petit em Paris e depois na Kunsthaus de Zurique) foi classificada por Jung como exemplo de esquizofrenia e alienação. Desde então, a interface entre arte e psicologia explora duas vertentes: arte como sintoma (fala de um sujeito) earte como campo de explicitação da teoria psicanalítica. Em ambas, um único mote: arte como fala, texto, discurso através do qual autor e/ou leitor podem destrinchar seus processos simbólicos.
O artista, como qualquer ser humano, passa a vida nutrindo-se da auto-imagem, daquela imagem esboçada, ao mesmo tempo, pela memória e pelo olhar do outro. Sonhos (1990) – alguns retalhos da memória de AkiraKurosawa alinhavados pelo onírico – é um exemplo cinematográfico dessa afirmação. É fato que uma obra de arte é o discurso de um sujeito, mas como explicar com todas as letras, virgulas, pontos e reticências que um espírito tão atormentado como o de Vincent tenha nos legado uma pintura tão luminosa, tão intensa e tão apaixonada a tal ponto que mesmo o senso comum inebria-se com “a paleta alegre deVan Gogh”? Tudo bem! Já ouvi falar que Eros e Tânatos andam de mãos dadas nos labirintos da psique e que esta encerra processos simbólicos em busca de interpretação.
Creio que seja possível perceber de que modo esses dois tipos de discurso (o da arte e o da psicanálise) se interpenetram ou, para usar o conceito esboçado por Mikhail Bakhtin, que nível de intertextualidade existe neles. Mas comonão sou psicanalista, não posso cometer a leviandade de analisar a obra de arte como sintoma (como queria Freud), nem me aproveitar do mote de Lacan (“o inconsciente é estruturado como uma linguagem”) transferindo-o para a esfera da arte.
A obra de arte, como qualquer texto, remete tanto a significações que lhe são anteriores (o processo de criação do autor) quanto posteriores (o processo depercepção do leitor). Muitos são os artistas que afirmam que a obra nunca é a consecução exata da idéia ou do impulso que a motivou, pois o embate do artista com a matéria e os instrumentos, as limitações e a destreza técnicas, o acaso e as influências (conscientes ou inconscientes) são alguns dos elementos que colaboram para a constituição da obra.
A obra é, por assim dizer, um eixo. De tal modo...
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