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Na edição de março-abril de 1998 da revista Hastings Center Report, editada por um dos centros mais importantes do mundo na pesquisa bioética, foi publicado o artigo "Bad Copies: how popular media represent cloning as an ethical problem", de autoria de Patrick Hopkins, que, com uma perspicácia fora do comum, analisou como a mídia impressa e televisiva dos Estados Unidos lidou com a clonagem deDolly, a ovelhinha nascida de reprodução assexuada, apresentada ao mundo em fevereiro de 1997 incialmente pela revista Nature (Hopkins, 1998). Ora, a começar pelo título "Bad Copies" ("Cópias Mal-Feitas"), uma ironia inteligente ao estilo narrativo adotado pela mídia norte-americana frente à clonagem de Dolly, o artigo de Hopkins foi antes inovador por seu argumento de fundo que mesmo por suasanálises de caso. Vale acompanhar algumas das palavras iniciais do autor e que, em larga medida, resumem seu argumento-chave: "...a maioria dos americanos recebeu treinamento sobre a ética da clonagem antes de saber o que seria a clonagem propriamente dita..." (Hopkins, 1998:1). Ou seja, segundo o autor, para um grande público, aí inclusos não apenas leigos na medicina mas todos aqueles não iniciadosnos segredos da genética, a ética da clonagem veio antes da técnica da clonagem.
O fenômeno Dolly na mídia, ao contrário do que se poderia deduzir da idéia de Hopkins da ética antes da técnica, não subverteu a lógica do pensar-fazer científico tradicional, caracterizada pelo fato de a reflexão ética, regra geral, ser posterior ao avanço científico. E, de fato, não foi neste sentido que Hopkinsafirmou que, para a clonagem de Dolly, a "ética veio antes da técnica" (Hopkins, 1998:6). O que o autor considerou foi que a mídia norte-americana deteve-se antes nos aspectos morais da técnica (e, principalmente, em seus prováveis desdobramentos em seres humanos) que propriamente nas sutilezas da técnica. Pouco se falou da história da clonagem, como dos girinos e dos ratos clonados desde os anos50. Ou mesmo do uso da clonagem na agricultura ou na pecuária desde os anos 80. O tempo histórico da mídia foi outro. A mídia deteve-se no futuro da clonagem. Ou melhor que isto: a mídia entreteve-se em imaginar e, muitas vezes, em fantasiar o futuro da clonagem.
Mas o futuro fantasioso não teve como protagonistas os animais clonados no tempo presente da clonagem, tais como as ovelhas (Dolly,Polly e Molly), os macacos (Neti e Ditto), os bezerros (Charlie e George) ou os ratos (estes de tão comuns à pesquisa científica são anônimos). Enquanto os animais não-humanos, já utilizados pela clonagem a título de rotina da pesquisa científica, encontram-se no passado e no presente, no futuro estaria a possibilidade de abertura da técnica para os humanos. E, neste futuro, infelizmente, a tônicanão foi a ética da clonagem, entendida aqui em um sentido positivo da reflexão cuidadosa, mas sim a antiética da mesma. Falou-se muito mais das conseqüências negativas da técnica de que seus possíveis benefícios à humanidade. Como acertadamente escreveu o ombudsman do jornal Folha de São Paulo, em matéria do dia 2/3/97: "...A ovelha não foi recebida com otimismo, mas antes como a prova da iminentedecadência da espécie humana, incapaz de refrear seus instintos diante das mórbidas possibilidades colocadas à sua disposição pela ciência..." (Santos, 1997:1-6). Na verdade, durante os primeiros meses de divulgação da notícia, com raras exceções, quase não houve espaço na mídia para avaliar as vantagens da técnica em animais humanos.
Em certo sentido, em nome do medo e da proteção, muitas vezesirrefletida, dos animais humanos, revivemos histórias trágicas de intolerância desmedida como, por exemplo, face à astronomia na Idade Média: os biólogos escoceses incorporaram o espírito de Galileu e Dolly foi algo como a besta apocalíptica. Para utilizarmos um substantivo suave para o teor da mídia ao descrever a clonagem de Dolly, diríamos que faltou, no mínimo, tranqüilidade. A tônica foi o...