Perspectiva e retrospecto em hugo friedrich

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Friedrich, Hugo. Estrutura da Lírica Moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978. Problemas atuais e suas fontes; 3.
(Link Lírica contemporânea)

I. Perspectiva e retrospecto

Perspectiva da lírica contemporânea: dissonâncias e anormalidade

A lírica européia do século XX não é de fácil acesso. Fala de maneira enigmática e obscura. Mas é de uma produtividade surpreendente. A obra dos líricosalemães, do Rilke dos últimos tempos e de Trakl a G. Benn, dos franceses, de Apollinaire a Saint-John Perse, dos espanhóis, de García Lorca a Guillén, dos italianos, de Palazzeschi a Ungaretti, dos anglo-saxôni-cos, de Yeats a T. S. Eliot, não pode mais ser colocada em dúvida quanto à sua significação. Esta obra mostra que a força de expressão da lírica, na situação espiritual do presente, não éinferior à força de expressão da filosofia, do romance, do teatro, da pintura e da música.
Com estes poetas, o leitor passa por uma experiência que o conduz — também ainda antes que se perceba disto — muito próximo à característica essencial de tal lírica. Sua obscuridade o fascina, na mesma medida em que o desconcerta. A magia de sua palavra e seu sentido de mistério agem profundamente, em-bora acompreensão permaneça desorientada. (...)
Há mais de um século, acumulam-se exemplos de um estilo no qual a dissonância tornou-se autônoma. Transformou-se. em uma coisa em si. E assim sucede que ela nem prepara nem anuncia coisa alguma. A dissonância é tão pouco uma portadora de desordem, assim como a consonância é uma garantia de segurança. Isto é válido em toda a extensão também para a lírica.(...)
Essa tensão dissonante da poesia moderna exprime-se ainda em outro aspecto. Assim, traços de origem arcaica, mística e oculta, contrastam com uma aguda intelectualidade, a simplici-dade da exposição com a complexidade daquilo que é expresso, o arredondamento lingüístico com a inextricabilidade do conteú-do, a precisão com a absurdidade, a tenuidade do motivo com o mais impetuosomovimento estilístico. São, em parte, tensões formais e querem, freqüentemente, ser entendidas somente como tais. Entretanto, elas aparecem também nos conteúdos.
Quando a poesia moderna se refere a conteúdos — das coi-sas e dos homens — não as trata descritivamente, nem com o calor de um ver e sentir íntimos. Ela nos conduz ao âmbito do não familiar, torna-os estranhos, deforma-os. A poesia não quer maisser medida em base ao que comumente se chama realidade, mesmo se — como ponto de partida para a sua liberdade — absorveu-a com alguns resíduos. A realidade desprendeu-se da ordem espacial, temporal, objetiva e anímica e subtraiu as distinções — repudiadas como prejudiciais —, que são necessárias- a uma orientação normal do universo: as distinções entre o belo e o feio, entre a proximidade e adistância, entre a luz e a sombra, entre a dor e a alegria, entre a terra e o céu. Das três maneiras possíveis de comportamento da composição da lírica — sentir, observar, transformar — é esta última que domina na poesia moderna e, em verdade, tanto no que diz respeito ao mundo como à língua.

Em sua obra já clássica, Estrutura da Lírica Moderna, Hugo Friedrich aponta como uma dascaracterísticas mais marcantes da poesia moderna a proposital obscuridade. Contrafação ao lirismo de grande público do Romantismo e ao especiosismo e transcendentalismo simbolista, visceralmente antilírica, a poesia da contemporaneidade implode-se enquanto poética do sentido, imprimindo em si um movimento entrópico, o que implica, por conseqüência, a voluntária instauração do caos, da desordem, como formade atacar no cerne a pieguice dos bons sentimentos e o idealismo místico.

A subversão do fazer poético vem a se manifestar sobretudo no plano da pessoa lírica, que parece cada vez mais perder o seu contorno, sua conformação de pólo aglutinador, capaz de dar unidade e sentido a si e ao mundo que a rodeia, ora por via da emoção e da subjetividade, ora por via da eleição de um objeto estético,...
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