Pedagogia

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Ciências Humanas e Filosofia
“O que é a Sociologia?”
Lucien Goldmann
Introdução
Ao iniciar este trabalho, pretendíamos intitulá-lo Introdução aos problemas de método em sociologia do espírito. Ao redigi-lo, percebemos que se centrava no problema das relações das ciências humanas com a filosofia.
Isto, aliás, era óbvio. Se a filosofia é mais do que a simples expressão conceitual dasdiferentes visões de mundo, se, além de seu caráter ideológico, traz também certas verdades fundamentais concernentes às relações dos homens com os outros homens e com o universo, então estas verdades devem encontrar-se na própria base das ciências humanas e notadamente de seus métodos.
Toda filosofia é, entre outras coisas, uma filosofia da consciência e do espírito (sem por isso ser necessariamenteidealista). As filosofias da natureza, desde o Renascimento até Schelling e Hegel, tentaram introduzir o espírito e a consciência no universo físico. O desenvolvimento das ciências físico-químicas parece ter provado o erro dessa pretensão. Esse desenvolvimento se fez em detrimento da filosofia da natureza que deveu assim ceder terreno. Desta experiência histórica avultou uma idéia, válida para omundo físico até uma nova ordem: um domínio de conhecimento incorpora-se à ciência positiva na medida em que se liberta de toda a ingerência filosófica.
O cientificismo tentou estender essa afirmação às ciências biológicas e humanas, preconizando uma biologia mecanicista, uma psicologia behaviorista, uma história empírica e uma sociologia descritiva e coisificante.
Se tem razão, a filosofia éuma sobrevivência ideológica que não tem mais qualquer razão de ser e de que é preciso se libertar.
No entanto, se a filosofia, ao contrário, traz realmente verdades sobre a natureza do homem, toda tentativa de eliminá-la falseia necessariamente a compreensão dos fatos humanos. Neste caso, as ciências humanas devem ser filosóficas para serem científicas.
O estudo do método em ciências humanascoloca assim, no próprio plano da ciência positiva, o problema da inutilidade ou, ao contrário, do valor atual da filosofia. Compreender-se-á que esteja no plano de fundo de nosso estudo.
Antes de terminar esta introdução, devemos agradecer ao Professor Emile Bréhier que nos levou a refletir sobre os problemas de método; sem suas observações este estudo provavelmente nunca viria à luz.
I
OPensamento Histórico e seu Objeto
Todo fato social é um fato histórico e inversamente. Segue-se daí que a história e a sociologia estudam os mesmos fenômenos e que, se cada uma delas captura um aspecto real, a imagem que ela dele nos dá não poderia ser senão parcial, na medida em que não for completada pelas contribuições da outra. Ora a passagem do abstrato ao concreto não se obtém adicionando duasimagens parciais. Não se pode obter um conhecimento real dos fatos humanos reunindo resultados parciais e deformantes de uma sociologia coisificante e psicologista com aqueles de uma história política ou bem simplesmente positivista. O conhecimento concreto não é a soma, mas a síntese de abstrações justificadas. No caso a que nos referimos, as abstrações não sendo justificadas, sua síntese eraimpossível. Não se trata, pois de reunir os resultados da sociologia e da história, mas de abandonar toda a sociologia e toda história abstratas para chegar a uma ciência concreta dos fatos humanos que não podem chegar senão uma sociologia histórica. É a tese que nos esforçaremos por sustentar no curso do presente estudo.
A sociologia não pode ser concreta se não for histórica, do mesmo modo, ahistória, se pretender ultrapassar o simples registro dos fatos, tornar-se-á necessariamente explicativa, a saber, numa medida maior ou menor, sociológica.
História, sociologia histórica, filosofia da história, tudo isso coloca um problema epistemológico prévio. Por que o homem se interessa por certos fatos únicos e localizados no tempo? Por que se interessa pelo passado e, sobretudo em que se...
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