Pedagogia

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Multiculturalismo e currículo em ação
Revista Brasileira de Educação
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Multiculturalismo e currículo em ação:
um estudo de caso
*
Ana Canen
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Educação
Angela M. A. de Oliveira
Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Letras
Introdução
O multiculturalismo, como corpo teórico e campo político, tem sido trazido à tona comintensidade,
nos debates atuais. Referindo-se à necessidade de
compreender-se a sociedade como constituída de
identidades plurais, com base na diversidade de ra-
ças, gênero, classe social, padrões culturais e lingüís-
ticos, habilidades e outros marcadores identitários, o
multiculturalismo constitui, segundo autores como
Semprini (1999) e Grant (2000), uma ruptura episte-
mológica com o projeto damodernidade, no qual se
acreditava na homogeneidade e na evolução “natu-
ral” da humanidade rumo a um acúmulo de conheci-
mentos que levariam à construção universal do pro-
gresso. O projeto multicultural, por sua vez, insere-se
em uma visão pós-moderna de sociedade, em que a
diversidade, a descontinuidade e a diferença são per-
cebidas como categorias centrais. Da mesma forma,contrapondo-se à percepção moderna e iluminista da
identidade como uma essência, estável e fixa, o multi-
culturalismo percebe-a como descentrada, múltipla e em
processo permanente de construção e reconstrução.
Considerando-se a polissemia do termo multi-
culturalismo e suas diversas abordagens, é importan-
te salientar que em sua vertente mais crítica, também
denominada multiculturalismo crítico ouperspectiva
intercultural crítica (Grant, 2000; McLaren, 2000;
Canen, 1999, 2001; Canen & Grant, 1999; Canen &
Moreira, 2001), trata-se de ir além da valorização da
diversidade cultural em termos folclóricos ou exóti-
cos, para questionar a própria construção das diferen-
ças e, por conseguinte, dos estereótipos e preconcei-
tos contra aqueles percebidos como “diferentes” no
seio desociedades desiguais e excludentes. No caso
da educação e da formação de professores em socie-
dades multiculturais e desiguais como o Brasil, ado-
tar o multiculturalismo crítico como horizonte nor-
teador significa incorporar, nos discursos curriculares
e nas práticas discursivas, desafios a noções que ten-
* Artigo apresentado, em versão preliminar, na 25ª Reunião
Anual da ANPEd(Caxambu, MG, 29 de setembro a 2 de outubro
de 2002). As autoras agradecem à
professora Solange de Almeida
Cardozo pela contribuição para o desenvolvimento desta pesquisa.
Ana Canen e Angela M. A. de Oliveira
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Set/Out/Nov/Dez 2002 Nº 21
dem à essencialização das identidades, entendendo-
as, ao contrário, como construções, sempre provisó-
rias, contingentes e inacabadas (Silva, 2000; McLaren,2000; Canen
&
Moreira, 2001; Canen, 2001).
Apesar de já caminharmos tendo em vista deli-
near conceitos teóricos do multiculturalismo crítico,
formas de traduzi-lo para o currículo em ação ainda
requisitam estudos entre nós, embora já sejam mais
freqüentes na literatura anglo-saxônica (Canen, 1999).
Já foi realizado, em outro momento, estudo de cunho
etnográfico sobre a escola paraperceber espaços pos-
síveis de valorização da diversidade cultural (Canen,
2001). Porém, restava acompanhar uma experiência
formal de ensino já comprometida, ao menos no âm-
bito de intenções, com pressupostos do multicultura-
lismo crítico.
Nesse horizonte de preocupações, o propósito da
pesquisa
1
a que se vincula o presente trabalho era o
de levantar categorias centrais para a análisede práti-
cas multiculturalmente comprometidas, bem como
identificar experiências pedagógicas imbuídas de uma
perspectiva de desafio a preconceitos e desigualda-
des e que se voltassem a questionamentos sobre a
construção das diferenças. Assumíamos que tais ex-
periências poderiam estar dirigindo seu foco a certas
dimensões identitárias específicas, tais como raça,
etnia, religião,...
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