Pedagogia da autonomia

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Educação, Meio Ambiente e Globalização[1]
Carlos Walter Porto-Gonçalves[2]

Vivemos um momento histórico da mesma natureza que o mundo viveu no Renascimento e no
Século das Luzes. São momentos de bifurcações, como diria Illya Prigogine e Isabelle Stengers[3].
É como estivéssemos imersos no olho do furacão cujos desdobramentos não temos nenhuma certeza
de como será o futuro imediato, menosainda o futuro a médio e longo prazo, sendo que alguns até
se perguntam se haverá futuro, como Albert Einstein diante do perigo nuclear. Eis o primeiro
desafio de um educador nessa quadra histórica: educar implica a idéia de futuro, de um futuro
qualquer que seja. Como educar se não se tem uma paisagem imaginária onde se haveria de viver,
um horizonte de vida que pudéssemos construir? Educar éprojetar esse futuro, essa paisagem a
partir do aqui e de agora. Implica, assim, recuperar nosso poder de inventar mundos de vida, de
construir futuros. Enfim, implica reinventar nossa vontade de querer poder construir o mundo – uma RE-VOLIÇÃO[4].
***
. Globalização, primeiro movimento

Não podemos mais contar com as certezas que acreditamos até um passado relativamente recente, e
essatalvez seja uma certeza que devemos afirmar. Uma dessas certezas que haveremos de
abandonar é a crença numa causalidade linear a que fomos habituados a partir de uma episteme de
matriz eurocêntrica, sobretudo pós-século XVIII. A partir dessa crença o destino dos povos era
pensado como se fora um continuum que os levaria inexoravelmente da Selvageria e da Barbárie à
Civilização (Auguste Comte). E aCivilização enquanto momento superior tinha nome e lugar: era a
Civilização Européia que, ciosa de sua superioridade, acreditava ter desenvolvido uma
racionalidade que mais que uma racionalidade era A Racionalidade. Esta racionalidade com R
maiúsculo não é, na verdade, tão européia como se apregoa, mas sim de uma subprovíncia daEuropa, a Europa Norte-Ocidental, que fala o inglês, o francês e oalemão. É a partir desta
subprovíncia européia que se desenvolveram as Revoluções no PENSAMENTO (“só é possível filosofar em alemão”, Caetano Veloso), na POLÍTICA (que nos ensinou a partir da França que “todos os homens são iguais”) e nas técnicas ECONÔMICO-PRODUTIVAS (na Inglaterra do Sr. James Watt e sua máquina a vapor que a queria universal) que passaram a colonizar corações e mentes em todoo mundo a partir de então. Este século das Luzes, segundo essa subprovíncia da Europa, vê obscurantismo por todo lado e crê ter descoberto A Razão Universal (Emanuel Kant).
Sabemos que nomear e colocar marcos não são operações ingênuas, ao contrário, são operações
interessadas e não foi de qualquer lugar que se marcou o século XVIII como marco histórico do
mundo moderno. Por isso, vimosinsistindo em sinalizar que se trata de uma visão que surge a partir
de uma subprovíncia européia, a norte-ocidental, que não se vê como uma subprovíncia, mas como
um não-lugar posto que vê seu modo de ver, pensar e agir como atópico, como se fora de lugarnenhum[5] e, assim, universal. Para aquelas que estão imersas nesse “magma de significações
imaginárias” eurocêntrico norte-ocidental pareceráestranho dizer que se trata de um pensamento de
uma sub-província até porque provinciano são os outros. São graves os efeitos dessa perspectiva até
porque, como toda visão provinciana, ignora o mundo na sua diversidade. Ignora, por exemplo, que
o mundo não é unilinear, mas, ao contrário, é constituído por múltiplos lugares que se caracterizam
por suas temporalidades distintas. Múltiplastemporalidades implicam múltiplos movimentos e
processos que fazem o mundo mais rico do que aquele que foi pensado a partir dessa matriz
européia norte-ocidental. Na verdade, o mundo na sua diversidade é negado enquanto tal, posto que
cada lugar é visto não a partir de suas próprias características, mas a partir de um olhar eurocêntrico
norte-ocidental como se cada lugar estivesse num estágio...
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