Paulo freire

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  • Publicado : 22 de junho de 2012
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A SITUAÇÃO CONCRETA DE OPRESSÃO E OS OPRESSORES 
Mas o que ocorre, ainda quando a superação da contradicão se faça em termos autênticos, com a instalação de uma nova situação concreta, de uma nova realidade inaugurada pelos oprimidos que se libertam, é que os opressores de ontem não se reconheçam com libertação. Pelo contrário, vão sentir-se como se realmente estivessem sendo oprimidos. Ë que,para eles, “formados” na experiência de opressores, tudo o que não seja o seu direitoantigo de oprimir significa opressão a eles. Vão sentir-se, agora, na nova situação, como oprimidos porque, se antes podiam comer, vestir, calçar, educar-se, passear, ouvir Beethoven,enquanto milhões não comiam, não calçavam, não vestiam, não estudavam nem tampouco passeavam, quanto mais podiam ouvir Beethoven,qualquer restrição a tudo isto, em nome dodireito de todos, lhes parece uma profunda violência a seu direito de pessoa. Direito de pessoa que, na situação anterior, não respeitava nos milhões de pessoas que sofriam e morriam defome, de dor, de tristeza, de desesperança.É que, para eles, pessoa humana são apenas eles. Os outros, estes são “coisas”. Paraeles, há um só direito — o seu direito deviverem em paz, ante o direito de sobreviverem, quetalvez nem sequer reconheçam. mas somente admitam aos oprimidos. E isto ainda, porque,afinal, é preciso que os oprimidos existam, para que eles existam e sejam “generosos”.Esta maneira de proceder, de compreender o mundo e os homens (que necessariamenteos faz reagir à instalação de um novo poder), explica-se, como já dissemos, na experiência emque seconstituem como classe dominadora.Em verdade, instaurada uma situação de violência, de opressão, ela gera toda umaforma de ser e comportar-se nos que estão envolvidos nela. Nos opressores e nos oprimidos.Uns e outros, porque concretamente banhados nesta situação, refletem a opressão que osmarca.
 
Na análise da situação concreta, existencial, de opressão. não podemos deixar desurpreender o seunascimento num ato de violência que é inaugurado, repetimos, pelos quetêm poder.Esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que sevão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressoresuma consciência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens. Fora da possedireta, concreta, material, do mundo e dos homens, osopressores não se podem entender a simesmos. Não podem ser. Deles como consciências necrófilas, diria Fromm que, sem estaposse, “perderiam ei contacto con eI mundo”
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Dai que tendam a transformar tudo o que oscerca em objetos de seu domínio. A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, oshomens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando.Nesta ânsia irrefreadade posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo a seu poder de compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal. Por isto é que, para os opressores, o que vale é
Ter mais 
E cada vez
Mais,
À custa, inclusive, do
Ter menos 
Ou do
Nada ter 
dos oprimidos.Ser,
Para eles, é
Ter 
E ter como classe que tem.Não podem perceber, na situação opressora em que estão, como usufrutuários, que, se
Ter 
É condição para
Ser,
Esta é uma condição necessária a todos os homens. Não podem perceber que, na busca egoísta do
Ter 
Como classe que tem, se afogam na posse e já não são.Já não podem ser.Por isto tudo é que a sua generosidade, como salientamos, éfalsa.Por isto tudo é que a humanização é uma “coisa” que possuem como direito exclusivo,como atributo herdado. A humanização é apenas sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão. Humanizar é, naturalmente, segundo seu ponto de vista, subverter, e não
ser mais.
Ter mais, na exclusividade, não é um privilégio de sumanizante e inautêntico dos demais e de si mesmos, mas um...
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