Passagem ao ato

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PASSAGEM AO ATO E ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA: PAIS “DESMAPEADOS”, FILHOS DESAMPARADOS
 
Bianca Bergamo de Andrade Savietto
 
Introdução
Na clínica psicanalítica atual, temo-nos deparado com significativa incidência das chamadas “novas patologias”. A freqüência do encontro clínico com estes estados limites vem fomentando reflexões sobre os limites de nossa prática e de nossos referenciaisteóricos, assim como sobre certas situações-limite presentes na cultura ocidental contemporânea, e obrigando a repensar e recriar a teoria psicanalítica e sua clínica.
É notável a forma com que as “novas” manifestações psicopatológicas podem ser observadas entre os adolescentes da atualidade, que expressam seu sofrimento privilegiadamente por meio do registro do ato, da convocação do corpo, o quesupõe precariedade dos mecanismos de simbolização. Estes sujeitos, de maneira insistente e preocupante, recorrem às passagens ao ato – modo peculiar de defesa que envolve, dentre outros aspectos, exatamente um curto-circuito do trabalho de elaboração psíquica e a convocação do registro corporal. Foi a maciça recorrência dos adolescentes dos dias de hoje a esta forma rudimentar de resposta que instigoua elaboração do presente trabalho.
Cremos ser significativa a nossa temática devido não apenas à alarmante difusão do apelo às passagens ao ato entre os adolescentes das sociedades ocidentais contemporâneas mas, fundamentalmente, ao fato de tratar-se de uma problemática que envolve em sua base uma  dimensão de violência psíquica. Esta violência, de caráter interno, é expressa por meio decomportamentos violentos voltados para si próprio e também contra o outro.
 
Pode-se observar que não estamos voltados para uma adolescência atemporal, e sim para a adolescência que habita o contexto cultural e familiar da atualidade, uma vez que é entre os adolescentes inseridos neste contexto que a problemática das atuações dramáticas vem ganhando largo espaço. Isto significa que na investigaçãoacerca do incremento do fenômeno das passagens ao ato entre os adolescentes da contemporaneidade, o plano psicopatológico não pode prescindir da análise de características próprias à cultura e à família das sociedades ocidentais contemporâneas – onde vigoram a violência, a insegurança e o atravessamento de uma dimensão traumática, dimensão sempre presente na ocasião da adolescência.
 
Adolescência epassagem ao ato
A própria adolescência pode ser entendida como uma situação-limite, isto é, como problemática essencialmente relacionada à questão dos limites. Isto porque representa o momento de passagem da vida infantil à vida adulta, situando-se na fronteira entre ambas; representa também o momento em que novos aspectos pulsionais emergem, modificando a dinâmica psíquica e colocando em xequea relação do sujeito com a alteridade interna (relação entre os espaços intrapsíquicos) e com a externa (relação entre os espaços intersubjetivos). Trata-se de um momento da vida potencialmente traumático, marcado pela presença de violência interna, pulsional (REZENDE CARDOSO, 2001).
O fenômeno das passagens ao ato, assim como os estados limites de uma forma geral, também aponta para a dimensãodo traumático, para o campo do irrepresentável, para uma violência psíquica radical. Este fenômeno pode ser observado com destaque em muitas das manifestações psicopatológicas que fazem parte do grupo das “novas patologias”, uma vez que nelas costuma estar em jogo este modo peculiar de atuação. As “novas” configurações psicopatológicas, por serem regidas por uma “economia do trauma” que põe emrisco a integridade do psiquismo, são caracterizadas – dentre outros aspectos – por uma tendência do aparelho psíquico a responder ao excesso de excitação por meio da compulsiva repetição de algum tipo de ação, numa tentativa de manter seu equilíbrio.
A compulsão à repetição possui, portanto, estreita relação com as passagens ao ato, as quais representam uma tentativa de contenção do excesso...
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