Parem de educar para trabalho

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PAREM DE PREPARAR PARA O TRABALHO!!!
Reflexões acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica1

Vitor Henrique Paro2
RESUMO: A partir de um conceito de educação enquanto constituição cultural de sujeitos livres, e entendendo a centralidade do trabalho enquanto mediação para a realização do homem histórico, o ensaio critica o paradigma do mercado aplicado àeducação e à escola, analisa os efeitos da lógica neoliberal aplicada à gestão da escola básica e propõe que esta escola, para além de sua função tradicional de preparar para o trabalho alienado e para o ingresso na universidade, se disponha a preparar para o “viver bem” e para o efetivo exercício da cidadania.

Introdução As recentes tentativas de aplicação da “gerência da qualidade total” àsescolas básicas no Brasil constituem caso particular da tendência que existe, sob o capitalismo, de aplicar a todas as instituições, em particular às educativas, os mesmos princípios e métodos administrativos vigentes na empresa capitalista. Em trabalho anterior (Paro, 1986), que denunciava essa tendência, pude demonstrar a maneira como ela contradiz o caráter educativo das práticas e relações que seespera ter lugar na escola. Entendida em seu sentido mais geral e abstrato, o que toda administração tem de “essencial” é o fato de constituir-se em “utilização racional de recursos para a realização de fins determinados.” (Paro, 1986, p. 18) Diante desse caráter mediador, são os fins buscados que dão especificidade a cada administração em particular. No caso da administração tipicamentecapitalista, esta é concebida para dar conta das questões relacionadas à eficiência interna e ao controle do trabalho alheio na empresa produtora de bens ou serviços, tendo como escopo servir à apropriação do excedente, pela dominação do trabalhador. Disso decorre a impropriedade de sua aplicação em instituição cujos fins dizem respeito à constituição de sujeitos, como é o caso da escola. Isto porque osobjetivos que se buscam na empresa capitalista não são apenas diferentes, mas antagônicos aos buscados na escola. Nos últimos anos, a crítica da aplicação da “qualidade total” nas escolas tem sido feita com competência por diversos autores (v. FIDALGO; MACHADO, 1994; GENTILI; SILVA, 1995; GENTILI, 1997; OLIVEIRA, 1997). Um dos principais objetos de análise dessa crítica é a aplicação da lógica domercado aos assuntos educacionais que a nova onda, chamada de

Trabalho apresentado no Seminário “Trabalho, Formação e Currículo”, realizado na PUC-SP de 24 a 25/8/1998 e publicado em: FERRETTI, Celso João et alii; orgs. Trabalho, formação e currículo: para onde vai a escola. São Paulo, Xamã, 1999. p. 101-120. Disponível em www.edilsonsantos.pro.br/textos/paremdeprepararparaotrabalho.doc 2Professor Titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. vhparo@usp.br.

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2 neoliberal, vem adotando. Todavia, um importante aspecto da adoção de parâmetros neoliberais à gestão escolar que parece não ter merecido ainda a necessária atenção dos especialistas são os efeitos diretos das novas práticas de gestão sobre a formação dos estudantes. Ou seja, trata-se de se perguntar em quemedida as práticas adotadas ou preconizadas pelos adeptos da “qualidade total”, com sustentação na ideologia3 do liberalismo econômico, carregam consigo um currículo oculto capaz de agir sobre as condutas dos próprios educandos que comungam dos tempos e espaços em que essas práticas se introduzem. O presente ensaio pretende ser uma contribuição a essa reflexão, procurando examinar as implicaçõesde uma gestão escolar pautada em valores liberais para o papel desempenhado pela escola pública fundamental bem como apontar perspectivas de reação à ausência de saber crítico dominante nessas escolas.

1 Sobre “qualidade total”, liberalismo e liberdade Em vez de retomar os múltiplos aspectos da crítica à aplicação do modelo gerencial da qualidade total na escola, talvez seja mais produtivo...
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