Os que bebem como caes

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  • Publicado : 15 de maio de 2012
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O romance Os que bebem como os cães, por exemplo, narra a estória de Jeremias, um preso que sofreu lavagem cerebral e perdeu a memória. Sem saber o motivo de sua prisão, tenta se adaptar à rotina torturante do cárcere, em condições subumanas. Algemado dentro de uma cela, com as mãos para trás, recebe uma sopa com droga, para que não tenha consciência do tempo. Para tomá-la, abaixa-se e sorve-a,igualmente a um cão. No pátio da cadeia, local do banho, observa o comportamento dos outros presos, que gritam os nomes de seus entes queridos e, por esta ousadia, são punidos pelos guardas com mordaça. Com o passar do tempo, os presos cometem suicídio esfregando os pulsos num muro da prisão, acontecimentos que fazem com que, aos poucos, o personagem se lembre de sua identidade e de sua vida antesde ser preso.

A obra é uma prosa de ficção dramática, narrada, em 3ª pessoa, por um narrador extradiegético. A fricção do romance com o real é máxima, pois os fatos descritos aconteceram na época da Ditadura Militar, ou seja, a realidade apresentada foi iconizada pelo autor.

Os capítulos da obra são A cela, O pátio e O grito, que se repetem sucessivamente. Todos estão interligados, dando umaidéia de circularidade, mas a narrativa não regride, ou seja, quando se inicia um novo capítulo A cela, após os acontecimentos do capítulo O grito, a personagem retorna apenas à cela, mas vive outras experiências. É possível observar que, no final de alguns capítulos, o autor já insere o início do capítulo seguinte. Desse modo, percebe-se que se trata de uma direção discursiva linear namacronarrativa e uma direção discursiva não-linear espiral na micronarrativa.

A participação da recepção pode ser considerada média ou máxima, uma vez que a obra é, aqui aberta, ali semi-aberta. Provavelmente, muitos leitores a deixaram de ler por causa do ritmo lento da narrativa: o dia-a-dia de um preso desmemoriado que tenta relembrar seu passado. A repetição dos capítulos (A cela, O pátio, O grito),acentua esse ritmo lento, sob um clima tenso, massacrante. Os leitores sofrem com o personagem, ficam tristes, sentem nojo e torcem por ele; daí que, ao se envolverem com a obra, tentam compreendê-la, de modo que o livro mantém uma relação dialógica e polêmica com a recepção. Na verdade, na época em que a obra foi escrita (1975), a temática era ainda mais polêmica, pois o país vivia a DitaduraMilitar. Sob este aspecto, o romance pode ser encarado como uma denúncia contra o poder constituído e a favor das vítimas. "O homem - diz Assis Brasil - não pode, não tem o direito de violentar o seu semelhante".

Não há, no texto, uma quantidade excessiva de adereços, o que caracteriza o estilo sóbrio. A narrativa é constantemente interrompida pelas digressões da personagem e do próprio narrador,marcando um ritmo lento e uma concentração da narrativa digressiva dissertativa, uma vez que narrador e personagem dissertam e refletem sobre os acontecimentos. Há, assim, predominância de atitude discursiva linear e a coloquialidade pode ser classificada como média.
Uma das principais marcas estilísticas encontradas na obra foi a iteração, como podemos observar nos seguintes trechos:
Aescuridão é ampla e envolvente (p. 05)
A escuridão é ampla e envolvente (p. 10)

(...) a natureza é sábia. É sábia e cruel. (p. 07)

(...) Que a natureza sábia o adaptasse a não ter medo... (p. 08)

Voltou a deitar-se de lado, apoiado sobre um dos ombros: era a posição mais correta, para um descanso parcial. A natureza sábia e cruel voltava a agir: a escuridão, antes ampla e envolvente, começava aficar algo cinza, algo esmaecida... (p. 11)

A porta grande não foi aberta, apenas uma portinhola em baixo, onde deixava algo parecido com um prato. A natureza sábia e cruel lhe transmitiu logo um cheiro diferente - um cheiro cálido, mas não identificador. (p. 12)

E tentou gritar de qualquer maneira: a natureza sábia e cruel lhe impunha tal gesto. (p. 15)

(...) E o que tinha a fazer era...
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