Os movimentos sociais contemporâneos

Nascimento da escolarização moderna: cotejo de duas leituras
Norberto Dallabrida
PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 22, n. 01, p. 93-110, jan./jun. 2004
Resumo
Neste ensaio o propósito é fazer a comparação de dois estudos de sociologia histórica sobre a escolarização moderna, para isso foram escolhidos os livros: Análise sócio-histórica de alguns momentos decisivos da evolução escolar noOcidente, de André Petitat (1994), e Arqueología de la escuela (1991), de Julia Varela e Fernando Alvarez-Uría. Os dois trabalhos constatam descontinuidade entre as práticas educativas medievais e os colégios modernos, sublinham a função produtora das instituições escolares e o seu caráter classista, mas apresentam diferenças na leitura dos modos de educação e da desigualdade de gênero. Com o o objetivode compreender o mundo contemporâneo, a historiografia tem revisitado a chamada Idade Moderna – período compreendido entre os séculos XVI e XVIII . Em boa medida, essa releitura está ligada à problematização da Revolução Industrial e da Revolução Francesa como parteiras da modernidade e à redescoberta da “revolução científico-tecnológica” e da consolidação dos Estados Nacionais, no final do séculoXIX, que proporcionaram um impacto significativo nas sociedades ocidentais e no mundo. Por outro lado, busca-se perceber processos de longa duração que tiveram começos parciais desde o século XVI e que são importantes para entender o nosso presente. Entre os trabalhos que proporcionaram nova leitura da Idade Moderna, pode-se citar O processo civilizatório, de Elias (1989), Vigiar e punir, deFoucault (1993), e História social da família e da criança, de Ariès (1981).
As transformações significativas nas práticas educativas que contribuíram para produzir o mundo pós-medieval também foram objeto de investigações recentes. Diferentes obras procuram colocar o foco sobre os deslocamentos que ocorreram na educação no início da Idade Moderna, entre os quais Produção da escola/produção dasociedade, do sociólogo canadense Petitat (1994), e Arqueología de la escuela, dos sociólogos espanhóis Varela e Alvarez- Uría (1991). O presente trabalho coteja essas duas leituras em torno da emergência da escolarização moderna, procurando constatar elementos comuns de análise, mas também perceber diferenças, especialmente aquelas vinculadas às fundamentações teóricas e aos recortes espaciais.
Olivro de Petitat, Produção da escola/produção da sociedade, publicado originalmente em língua francesa em 1982 e traduzido para o português doze anos depois, tem como subtítulo “análise sócio-histórica de alguns momentos decisivos da evolução escolar no ocidente”. O primeiro “momento decisivo” da escolarização apontado pelo sociólogo canadense foi a instituição e disseminação dos colégios a partir doséculo XVI, considerado “o fenômeno mais marcante da história das instituições escolares”. Os colégios das congregações católicas, das igrejas protestantes e aqueles vinculados às universidades tinham, segundo ele, “semelhança institucional”, pelo fato de terem em comum dispositivos escolares tais como “concentração dos cursos dentro dos estabelecimentos, gradação sistemática das matérias,programa centrado no latim e no grego, controle contínuo dos conteúdos adquiridos, supervisão e disciplina.” (PETITAT, 1994, p.76).
Outra característica notável nos colégios é a sua permanência ao longo de praticamente toda a Idade Moderna, pois somente em meados do Século das Luzes passaram a ser alvo de críticas, vindas dos que defendiam o ensino das línguas nacionais e dos saberes das CiênciasNaturais e daqueles que propunham novas metodologias de aprendizagem. Petitat (1994) constata as “profundas diferenças” entre as práticas educativas medievais e os colégios modernos. O deslocamento histórico começou a se processar nos hospitia, alojamentos para estudantes pobres que freqüentavam as Faculdades de Artes, mantidos por nobres ou eclesiásticos enriquecidos. Em Paris, em princípios do...
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