Os maias

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  • Publicado : 20 de setembro de 2012
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Em junho de 1888, os livreiros portugueses começaram a vender os primeiros dos cinco mil exemplares da primeira edição de Os Maias. É tiragem que impressiona ainda hoje. O que dizer então naqueles tempos de um Portugal pouco habitado e não muito lido? Foi uma temeridade, mas à audácia dos editores correspondeu a curiosidade dos leitores e o interesse da crítica. E o livro do desconfiado Eça deQueiroz transformou-se, desde então, num sucesso de vendas.

E assim é [ou voltou a ser] hoje em dia. Andou uns tempos esquecido, é verdade, mas bastou que a televisão fosse buscar inspiração [palavra perigosa] no velho romance, para que as novas reedições sumissem, recém-chegadas às livrarias, pouco antes do Natal, e fossem totalmente consumidas pouco antes do novo ano.

Eça de Queiroz foiimpreciso e modesto ao dar a Os Maias o subtítulo 'episódios da vida romântica'. Na verdade, o seu mais famoso romance é uma tragédia, tal como a entendia Sófocles quando, já na maturidade, compôs o seu Édipo. Uma tragédia burguesa, mas quand même uma tragédia, pois que lá está a grave transgressão moral, cometida em completa inconsciência por seus dois personagens centrais — Carlos Eduardo e MariaEduarda.

Da Maia, ambos; irmãos, apaixonados e incestuosos ambos, e belos e trágicos.

Invejo quem agora, instigado pela minissérie, vai ler esse livro pela primeira vez. Terá prazer único e irreproduzível. As releituras que hão de vir, mais tarde, servirão de consolo, mas não de substituto. Esse prazer estará certamente na elegância barroca da forma e no desenvolvimento astucioso do entrecho.Mas estará também, ou principalmente, nos admiráveis retratos que Eça faz de seus tipos principais, com a elegância e a minúcia de um genial pintor romântico, mas com 'o seu olho à Balzac'.

A começar não por um tipo, mas por uma casa, mais exatamente a 'casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875', que surge, penumbrosa e prenunciadora, logo na primeira frase do livro, e queera conhecida como a casa do ramalhete 'ou, mais simplesmente, o Ramalhete'. Então, lemos, já encantados: 'Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica quecompetia a uma edificação dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas'.

Ai está o cenário da tragédia. O Ramalhete é, pela ordem de entrada, o primeiro personagem em cena, com suas paredes sempre fatais àquela antiga família da Beira, tão rica e tão infeliz. E será no Ramalhete e em torno dele que vamos ser apresentados aospersonagens nos quais Eça de Queirós se insinua, para nos falar através de suas muitas vozes.

Seus retratos eram sempre perfeitos e, ao longo da trama, coerentes. A única personagem que o confunde é Maria Eduarda, por sua beleza de deusa. Quando ela aparece — e como custa a aparecer! —, 'é alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carne'; algumas páginasadiante, Carlos a revê e nota que 'os cabelos não eram louros, como julgara de longe, à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa'.

Falei de retratos e o mais correto é falar de auto-retratos.

Se Fernando Pessoa tinha seus heterônimos, Eça tinha os seus 'eus', como diz Beatriz Berrini, que eram muitos e muito separeciam. Ele nos fala pela voz severa do velho Afonso da Maia, que 'era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes...o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve, aguda e longa', a reclamar melhores destinos para o seu lamentável país e a cobrar, do neto tão promissor, menos diletantismo e mais realizações.

Fala-nos também com as palavras cruéis e desassombradas do neto...
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