Origens do estado moderno

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 41 (10013 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 20 de abril de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
Modesto Florenzano

SOBRE AS ORIGENS E O DESENVOLVIMENTO DO ESTADO MODERNO NO OCIDENTE* Modesto Florenzano

I
Na Introdução à sua A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber também incluiu o Estado ao lado do capitalismo e daqueles fenômenos culturais, que, por serem encontradiços em outros espaços e tempos, não podem ser considerados como uma criação exclusiva da CivilizaçãoOcidental. Mas Weber procurou justamente demonstrar que somente na Civilização Ocidental teve lugar o desenvolvimento de um capitalismo racional, de fenômenos culturais dotados de “universal[idade] em seu valor e significado”, e o desenvolvimento de um Estado como uma “entidade política, com uma ‘Constituição’ racionalmente redigida, um Direito racionalmente ordenado, e uma administraçãoorientada por regras racionais, as leis, e administrado por funcionários especializados”1.
*

11

Este texto, originalmente intitulado “O Estado moderno: origens, componentes essenciais e evolução”, foi apresentado como prova de erudição no concurso de professor titular de História Moderna, que teve lugar em junho de 2006, na FFLCH-USP. Citações extraídas da edição da Livraria Pioneira Editora, p. 1e 4.
Lua Nova, São Paulo, 71: 11-39, 2007

1

Sobre as origens e o desenvolvimento do Estado moderno no Ocidente

12

Dessa descrição de Weber, segue-se que o Estado, tomado em sentido estrito, como entidade política, dotado de todos aqueles atributos acima lembrados, não se encontra plenamente desenvolvido nem mesmo no Ocidente antes do século XVIII, mas tomado em sentido lato, comoentidade de poder e/ou dominação, encontra-se em muitos outros lugares e épocas. Assim, dir-se-ia que para a instituição Estado vale, mais ainda, aquilo que K. Marx e Weber, de perspectivas opostas, disseram do capital e do capitalismo em geral, ou seja e respectivamente, que é ante-diluviano e pode ser encontrado em todas as sociedades em que existe dinheiro. Marx, sem esquecer F. Engels, diriaque assim é, porque todas as sociedades, excluindo as chamadas sociedades primitivas, se dividem em classes, tornando o Estado necessário para permitir a exploração--dominação de uma classe sobre outras, de modo que luta de classes e Estado formam um par historicamente inseparável que somente sairá de cena conjunta e definitivamente com o fim da história. Sobre as sociedades sem Estado, oantropólogo francês, já falecido, Pierre Clastres, com base em suas pesquisas sobre os índios guaranis da América do Sul e em sua leitura do Discurso da servidão voluntária, escrito no século XVI, por Etienne de la Boétie, avançou, em 1974, uma tese especulativa, com sabor anarquista e que, ao mesmo tempo, faz lembrar o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de J. J.Rousseau. Segundo Clastres, as sociedades primitivas, tanto as extintas quanto as sobreviventes, teriam permanecido nessa condição por opção, por terem se recusado a criar, deliberadamente, o Estado e tudo o que de inominável este acarreta. De onde segue-se que a sua invenção foi, nas palavras desse antropólogo, “o momento histórico do nascimento da História, essa ruptura fatal que jamais deveriater-se produzido, o acontecimento irracional que nós modernos nomeamos,
Lua Nova, São Paulo, 71: 11-39, 2007

Modesto Florenzano

de modo semelhante, o nascimento do Estado”2. Se a tese de Clastres é fantasiosa, o discurso de La Boétie é ingênuo, não permitindo avançar no conhecimento da política e do Estado; daí porque depois de um pequeno e passageiro furor causado por sua reedição, furorque, salvo engano, ficou restrito à França e ao Brasil, o discurso de La Boétie recaiu no limbo que o acompanha desde sempre. Começamos essa exposição sobre o Estado moderno citando Weber e Marx, tendo em vista que as suas teorias sociais estão entre as mais abrangentes, entre as que mais marcaram o pensamento e a historiografia do século XX, e entre as mais contrastantes. Com efeito, por um lado,...
tracking img