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  • Publicado : 27 de março de 2012
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Sobre o Relativismo Cultural |

Por Renato Ortiz |

O livro de Franz Boas, The Mind of Primitive Man, abria com uma imagem cartográfica do globo terrestre: uma diversidade de povos, culturas, idiomas e costumes distintos. Ao lado dos europeus e de seus descendentes, contrastam os chineses, os nativos da Nova Zelândia, os negros africanos, os indígenas americanos, cada lugar com o seu modo devida peculiar. A paisagem é a fotografia de uma época, o planeta seria um conjunto de nódulos distintos, países, civilizações, grupos diversos. O "nós" europeu ocuparia apenas uma faixa de sua extensão, restariam muitas outras, afastadas de sua maneira de ser. A imagem proposta descreve o planeta como um emaranhado de pontos discretos, cada um deles constituiria uma identidade específica. Acâmera antropológica captava a territorialidade desses espaços descontínuos. Muitas vezes esta perspectiva (no sentido arquitetônico do termo) se projeta sobre o mundo atual. Novamente, ela prescinde da idéia de situação, cada cultura desfrutaria de uma inteireza absoluta. Basta, porém, imergi-la nas contradições reais da história para percebermos que o particular é sempre tensionado pelo contexto noqual se insere. A situação de globalização redefine as partes, desde as mais "tribais" às nações mais industrializadas. Neste sentido, não há como escapar à sua dimensão comum. E não se trata de uma escolha ou de uma visão etnocêntrica do mundo, o processo é mundial, penetra e atravessa as diferenças sociais e culturais à despeito de suas especificidades. As questões "comuns", "gerais", não decorremnecessariamente de uma filosofia universalista, elas existem por que as diferentes sociedades estão situadas numa teia de relação de forças (são subalternas ou dominantes) que as transcendem e as determinam (os direitos humanos não são universais, mas pertencem ao destino comum no âmbito da modernidade-mundo).

As sociedades são relacionais, nunca relativas. Seus territórios são invadidos pelosgrupos inimigos e as trocas de mercadorias, objetos e mulheres, são constantes. Elas possuem, inevitavelmente, uma concepção do Outro. Não basta definir-se a si próprio, na verdade, isso se faz em contraposição aos que se encontram fora de um determinado círculo simbólico. Sabemos que o termo "bárbaro" provém da Grécia antiga, ele servia para distinguir entre um "nós" grego e "os outros", osestrangeiros. Ao reconhecer o pertencimento à um determinado grupo, o idioma era uma fronteira decisiva, os "bárbaros" eram aqueles que não o entendiam. Na Europa ocidental a representação do Outro passava pelo contraste com a idéia "civilização", civilidade dos modos, e com a revolução industrial, as conquistas técnicas. Cabia aos não europeus o fardo da selvageria ou a incompletude das culturasorientais (o capitalismo não podia nascer no Oriente, dizia Weber). Porém, este não é um traço específico de uma única sociedade (muitos diriam, da dominação ocidental). Os velhos mapas chineses do século XVII dividiam o mundo em círculos concêntricos. No centro encontrava-se o império celestial, na sua vizinhança, as zonas sob sua influência, Japão, Coréia, Vietnã, distante, viviam os estrangeiros,os ocidentais. Os asiáticos eram limpos (tomavam banho regularmente) e comiam com pauzinhos, os outros eram sujos e comiam com as mãos. No final do século XVIII os ingleses enviam uma embaixada à China para "abrir os portos" ao "livre comércio". Após a Revolução Industrial muitos fabricantes queriam impor a comercialização de seus produtos em escala internacional. Porém, a China imperial era ummundo a parte, no qual o tempo celestial regia a vida dos homens e do imperador. Pequim era o centro de um universo quadrado, cujos cantos, habitados pelos estrangeiros, não eram cobertos pelo céu. Os presentes trazidos pelos ingleses, uma forma de seduzir o poder local, não surtiram o efeito desejado, abrir as negociações, eles foram percebidos como uma oferenda ao imperador, sendo interpretados...
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