Numa terra de voduns, encantados e orixás

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 86 (21389 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 21 de março de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
NUMA TERRA DE VODUNS, ENCANTADOS E ORIXÁS


Antonio Evaldo Almeida Barros


As manifestações relacionadas à religiosidade popular e negra enfrentam, sobretudo até início dos anos 1950, uma forte campanha de perseguição acompanhada de um arsenal de representações negativas. Ao mesmo tempo, em meio às perseguições e depreciações, percebe-se que alguns elementos daquelasmanifestações, ao mesmo tempo em que obtêm uma conquista simbólica, pois passam a ocupar um dado lugar no conjunto discursivo que define a identidade regional (identidade maranhense), tornam-se reconhecidos e prestigiados socialmente, em diferentes contextos, intensidades e níveis. Este processo foi lento e descontínuo, mas efetivo, e se deu em meio a múltiplas interações e conflitos sociais.O fato mais evidente da religiosidade popular e negra no Maranhão é sua força e diversidade, espalhando-se por diversas regiões do estado. Em meados do século XX, destacavam-se nesse complexo e múltiplo panteão religioso o tambor de mina e a pajelança. Tambor de mina é o nome dado sobretudo no Maranhão a cultos religiosos de origem africana, também presentes em outros estados do Brasil, como ocandomblé na Bahia, o xangô em Pernambuco e o batuque no Rio Grande do Sul, bem como em outros países da América Latina, como a Santería, em Cuba, e o Vodun, no Haiti. O tambor de mina faz referência aos “negros minas”, denominação genérica dada aos escravos trazidos de regiões da África ocidental, muitos dos quais embarcavam no forte de El-Mina, atual Gana (ASSUNÇÃO, 1999b). Como em outrasreligiões afro-brasileiras, o tambor de mina abriga nações ou modalidades rituais cuja origem se associa a povos distintos, a exemplo dos jeje, nagô, cambinda, cacheu e fulupa, nomes presentes na memória do povo-de-santo maranhense (PACHECO, 2004, p. 48). Entretanto, apenas duas destas nações se cristalizaram e perpetuaram como identidades religiosas demarcadas com certa nitidez, a mina jeje e a minanagô, cuja origem remonta aos dois terreiros mais antigos do Maranhão, a Casa das Minas Jeje e a Casa de Nagô, fundados provavelmente na primeira metade do século XIX (FERRETTI, 1985, p. 223).
Equivalente ao catimbó (Jurema), em Pernambuco, e ao candomblé-de-caboclo, na Bahia, a pajelança, que também guarda algumas semelhanças com o culto a María Lionza, na Venezuela, e o espiritismo deCordón, em Cuba, refere-se a um conjunto de práticas e representações que engloba diversos elementos da cultura e religiosidade populares do Maranhão, especialmente do catolicismo popular e do tambor de mina, e, possivelmente, reminiscências de costumes ameríndios. Embora no Código Criminal de 1830, “o primeiro elaborado pelo Estado brasileiro para substituir o ditado pelo Estado português”, não sefalasse em perseguição aos “feiticeiros” (DANTAS, 1988, p. 165), os Códigos de Postura de Codó (1848) e de Guimarães (1856), no Maranhão, mostram que bem antes da abolição, os negros se dedicavam a práticas curativas ditas “pajelança”, associada pelos grupos dominantes à “feitiçaria”. A “pajelança”, nos anos 1870-80, era apresentada como uma “religião” que estava se organizando na capital (FERRETTI,M., 2001, p. 36), uma prática “contra feitiçaria” (CODÓ, 1848; GUIMARÃES, 1856), uma sociedade suspeita de negros de “classe baixa” voltada para feitiçaria, prática de crimes, e também cura e exorcismo de demônios (FREITAS, 1884, p. 47-8), religião ou culto politeísta e fetichista (O PUBLICADOR, 1886; SANTOS; SANTOS NETO, 1989, p. 19). Tudo indica que pajelança/pajé passara a ser um termo genéricoutilizado pejorativamente, particularmente durante o século XIX, para designar quaisquer manifestações não-católicas consideradas feitiçaria no Maranhão (FERRETTI, M., 2004, p. 35), o que deve estar relacionado à entrada massiva de africanos no estado a partir do século XVIII.
Segundo Parès, a população africana, sobretudo a de origem Congo-Angola, predominante no Maranhão, e seus...
tracking img