Norma

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PREFÁCIO À 1 a EDIÇÃO.
Estas meditações, faz tempo que as escrevi. Reli-as agora, e confesso não ter encontrado boas razões para mudar grandes coisas. Assim, elas ficam, do jeito como eu fui: cada coisa que se escreve é um pedaço do próprio corpo que se compartilha com outro... Fui deste jeito. Mudei. Fiquei mais velho. Coisas belas e coisas tristes me aconteceram. Estou diferente, e istoaparece nas coisas que escrevo hoje... Criei coragem para dizer as coisas com simplicidade. E comecei a perseguir a beleza, mais que a verdade. É que descobri, tardiamente, através da surpresa de amizades inesperadas, o fascínio da poesia. Que poema será verdade? Que poema será reflexo especular fiel das coisas do nosso mundo? Poemas, invocações de ausências, funduras onde nadam os desejos: é aí que oscorpos se preparam para as batalhas. Seria possível isto, uma política que nascesse da canção, do transbordar da fonte? Política da ternura e não da azia, da visão utópica e não do ressentimento? Visitando a mim mesmo e lendo coisas dos mundos mágicos e dos mundos dos sonhos, aprendi que o corpo não é coisa biológica: poemas que se fizeram carne. Somos moradas de palavras, possessões demoníacasou o vento indomável do Espírito. Palavras: continuação das mãos. Mas, forma visível das palavras. Há de se buscar a palavra que se transforma em carne: aqui, o segredo do dizer mágico. Não basta o saber; é preciso o sabor. É preciso que as palavras sejam belas, para seduzir... Criei coragem tanibém para dizer o riso. Ele sempre esteve em mim. Mas a seriedade do mundo da ciência não permitebrincadeiras. Por isto que lhe falta o poder para exorcizar demônios. Tudo sério, tudo triste. Não, me enganei... Quem fica triste pode sempre ficar alegre. Mas no mundo da ciência também isto é proibido. Há de se cultivar a objetividade, uma fala vazia de lágrimas e de risos, aquele que escreve sempre ausente. Mudei-me pra outro lugar. Acontece que eu também sou parte da realidade, com minhas alegrias etristezas, e o meu riso são as cócegas com que percorro cavalos arreados e exames de doutoramento. Falta de seriedade? Se o riso faz correr o medo por que não? Com freqüência o humor entorta a arma. Os dominadores ficam tranqüilos quando vêem o medo e a tristeza: sinais de que movam na alma dos dominados... Beleza e riso são partes do que penso sobre a religião. No Paraíso, segundo os poemasbíblicos da criação, não existia nem a ética e nem a política: mas existia a estética. Não foi esta a tentação da serpente, que se o fruto mágico fosse comido os olhos do homem e da mulher se abririam, e seriam então como deuses, conhecendo o bem e o mal? Mas a beleza já estava lá, coisa boa para os homens, coisa boa para os deuses. No final das contas, não será por causa da beleza que fazemos todas aslutas? O ético é um instrumento do estético. Amo a justiça porque, ao passar por seus limites, o mundo fica um deleite para os olhos... E não será verdade que aqueles que viram a beleza têm mais coragem para o combate? Como são belas as multidões que levam rosas nas mãos e canções nas suas bocas... Elas nos dizem da teimosia da vida, que não se assusta nem com dentes e nem com cascos, e continuaa rir e a dançar...

Quanto ao riso, lembro-me da afirmação de Reinhold Niehuhr, de que o riso é o início da oração. Só Deus tem o direito de se levar a sério. Quem compreende isto tem a liberdade não só de rir dos outros que se levam a sério, como também de rir de si mesmo. E quem é capaz de rir de si mesmo começou a andar no caminho da bondade e da mansidão. Os sérios estão condenados a serinquisidores. Medito sobre a religião como um caminho para o riso e paia a beleza... Mas são estas coisas que deixei escondidas, nas entrelinhas, quando escrevi este livro. Se o leitor tiver paciência e souber escutar, é bem possível que ele ouça risos e veja invocações de beleza no lugar onde elas se escondem... 25 de abril de 1984

DO PARAÍSO AO DESERTO REFLEXÕES AUTOBIOGRÁFICAS
Para...
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