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  • Publicado : 30 de junho de 2012
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Da tolerância

O que John Locke e Raul Seixas têm em comum? Ou Voltaire e Tim Maia? Todos, de uma forma mais ou menos significativa e abrangente, pregaram a tolerância para com as pessoas e suas convicções políticas, filosóficas, religiosas etc. Lembram-se da canção de Tim? “Vale tudo, só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher”. E da de Raulzito, quando diz “Se eu quero evocê quer tomar banho de chapéu ou esperar Papai Noel ou discutir Carlos Gardel então vá! Faz o que tu queres pois é tudo da lei! Da lei!tentar”. O pensador inglês John Locke escreveu no século XVII sua famosa “Carta sobre a Tolerância” no que foi seguido pelo francês Voltaire um século depois, o qual redigiu seu igualmente importante “Tratado acerca da Tolerância”.
Tolerância significa emlatim “suportar” ou “sustentar”. O conceito moderno ensina que tolerar significa “admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferem dos de um indivíduo ou de grupos determinados, políticos ou religiosos”. As modernas democracias, notadamente a inglesa e a americana, apregoam a plenos pulmões que subsistem sob a égide da liberdade de pensamento, de expressão e de culto. Nossa constituição alçouao status de cláusula pétrea em seu artigo 5º a garantia de tal liberdade. Atualmente, em todo canto se ouve falar de respeito às diferenças, de se adotar um comportamento politicamente correto ante as minorias, de se respeitar a atitude diferente do outro.
No entanto, os fatos que parecem despontar atinentes à cultura da tolerância na sociedade são inquietantes. Persiste a velhadiscrepância entre a propagação do discurso e a aplicação da prática. Ora, o discurso da tolerância é fabuloso, sedutor. A idéia de que todo mundo pode viver do jeito que quiser, pensando, sentindo e crendo como lhe apetece, desde que com isso não se fira nenhum outro direito fundamental do seu próximo, é deveras agradável. Contudo, o que ainda se observa na maioria das vezes é uma tremenda incapacidade dese aceitar o comportamento social dito “alternativo” (ou “alterna”, como pejorativamente classifica a burguesia preconceituosa recifense). Por exemplo, quem já não ouviu o curioso comentário com a seguinte idéia básica “eu não sou contra o homossexualismo, não tenho nada a ver, por mim podem fazer o que quiser, desde que não venham se meter comigo” ou “os caras podem ser gays à vontade, só nãoconcordo em ficarem se beijando/mostrando sua safadeza em público”. Bastante paradoxal, não? Ainda é muito comum deparar-se com alguém com piercing na orelha ou no nariz e chamá-lo de maluco ou ridículo, ignorando-se o fato de que índios, indianos e genoveses quinhentistas usam ou já usaram esse tipo de adereço há séculos. Ou quem já não flagrou uma turma ouvindo funk na casa ao lado (mesmo não sendofunk, mas um bom hip-hop à Racionais MC’s) e foi logo dizendo “olha só, o povo não tem bom gosto mesmo” (mesmo que um certo grupo já tenha num ano desses musicado uma grande verdade ao cantar que “é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado” – que o digam as festinhas particulares da burguesia hipócrita das quais já muito participei). Isso para ficarmos em nível “micro”.Analisando o fenômeno da intolerância de um ponto de visto “macro”, o que se observa é a notória parcimônia de tratamento de indivíduos distintos nos aeroportos, nas embaixadas, nas relações religiosas e políticas internacionais. Como não lembrar do tratamento dado aos americanos em geral aos cidadãos de origem árabe após os atentados do 11 de setembro? Bastava um nova-iorquino ou um texano veralguém de barba grande passando na rua para sentir-se impelido a esmurra-lo ou xinga-lo em público. E o que dizer do brasileiro Jean Charles claramente intolerado ao passear tranqüilamente numa rua em Londres? O governo chinês não tolera nem a pau a liberdade de culto dos pacíficos budistas que pregam um Tibet livre, baixando o sarrafo em todo mundo que se diz a favor da causa, mesmo esquecendo que...
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