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  • Publicado : 3 de outubro de 2012
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A melhor forma de começar a falar sobre Degas Dança Desenho, escrito pelo poeta e pensador Paul Valéry (1871-1945) é utilizando as palavras do próprio autor no primeiro capítulo (“Degas”). Diz Valéry, quase como se estivesse pedindo desculpa ou pelo menos se explicando para o leitor: “Voltarei a falar sobre isto, sem dúvida… Aliás, nem sei muito bem o que direi mais à frente. É possível que, aofalar de Degas, eu vagueie um pouco pela Dança e pelo Desenho. Não se trata de uma biografia segundo as regras; não tenho uma opinião muito boa das biografias, o que prova apenas que não fui feito para escrevê-las. De todo modo, a vida de alguém não passa de uma sequência de acasos, e de respostas mais ou menos exatas a acontecimentos casuais…” (pg.17).
Confesso que com esse começo já fuicapturada pelo estilo de Valéry, mesmo porque eu mesma não sou muito fã de biografias (questão que já comentei em outras oportunidades aqui no Meia Palavra). E de fato, embora Degas Dança Desenho possa ser lido como uma biografia, o autor conseguiu fazer algo que vai além disso, trazendo para o leitor a oportunidade não só de reflexões sobre a arte (e aqui de um modo bem amplo, envolvendo além dadança e o desenho, como o título sugere, também a literatura), mas também o registro de uma época fundamental para a modernidade. Além disso, o tom e estruturas escolhidos por Valéry fazem desse livro uma leitura interessante e ao mesmo tempo prazerosa – é como ouvir um professor apaixonado pelo tema de sua aula, ou mesmo um amigo falando de algo que gosta muito. Em outras palavras, é cativante.E o que parece ser um bom indicativo sobre isso é o fato de que, embora eu já conhecesse Degas, nunca tive nenhum conhecimento sobre os assuntos que são mais abordados por Valéry, e mesmo assim fiquei complemente encantada do início ao fim com as questões por ele apontadas. Desde a ideia do autor sobre a relação entre movimento e uma pintura registrando isso (o que fica mais evidente no casodas bailarinas de Degas), até mesmo quando fala sobre o nu, por exemplo, com a ótima passagem “O Nu era coisa sagrada, ou seja, impura” (pg.83). Há tanto das ideias de Valéry ali que a biografia se desdobra em estudo, parece que gerando dois livros distintos. E eu até poderia ver isso como um aspecto negativo, mas acredite, não é. Até porque há de se lembrar da proposta original do autor, e da jámencionada explicação sobre biografias presente no primeiro capítulo.
Das anedotas de Valéry sobre Degas algo que me chamou bastante a atenção foi a presença constante do poeta Mallarmé. Imediatamente recordei de recente leitura do livro Altas Literaturas, de Leyla Perrone-Moisés, no qual a autora em determinado momento aponta como um caso de reconhecimento dos escritores-críticos queestudou. A coincidência fica por conta da momento em que ambos os artistas, Degas e Mallarmé, se inserem dentro da história, e da importância de ambos para o que seria o “Modernismo” em seus campos de atuação, especialmente por inovarem, buscarem ampliar os horizontes em suas artes.
Entre os capítulos favoritos poderia ficar com “Mímica”, onde Valéry faz uma descrição fantástica de um evento davida de Degas que consegue tão sutilmente mostrar a admiração sem-fim que o autor tinha pelo artista, ao mesmo tempo que trata da questão da representação da mulher na arte de Degas. “Pecado de Inveja” também é um dos pontos altos do livro, quando Valéry traça um paralelo entre ser um pintor e ser um escritor, que conclui “À mesa, o escritor maravilhado os escuta, mudo. Todo seu espírito ficou nopapel. Restam-lhe apenas os restos…” (pg.117). Há também “Romantismo”, onde compara o período mágico da Paris de 1860 até 1890 com o do Romantismo (1825-1955), e mesmo que seja um capítulo breve, traz muito a refletir.
Mas sem sombra de dúvidas o momento mais arrebatador é o da conclusão, com “Crepúsculo e fim”. É tão melancólico, mas tão humano – Valéry não faz de Degas um super-homem...
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