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Miguel Torga nasceu em 1907 em S.w Martinho de Anta, concelho de Sabrosa Trás os Montes, aldeia onde cresceu e que o havia de marcar para toda a vida. De nome Adolfo Correia da Rocha, adoptou o pseudónimo de Miguel Torga

O Lopo

- Perdeste - anunciou sem rodeios o Dr. Canavarro, quando o Lopo entrou.
- Oh, senhor doutor, nem a brincar!
- Perdeste - reforçou o advogado, a fazer balançar omata-borrão sobre a banca. E acrescentou: - Recebi ontem à tarde a notícia da sentença. Tive de telefonar para Lisboa, e disseram-me do Tribunal.
O Lopo, que desde as primeiras palavras estacara à entrada do escritório, mordeu o beiço por debaixo do bigode espesso, pôs-se a desandar o chapéu na mão e ficou assim um pedaço. Por fim, lá conseguiu abrir a boca.
- Então perdi?! - É como dizes. -Custas e tudo?
- Tudo.
- Bem, pronto, não se fala mais nisso. E muito obrigado. O outro já saberá?
- Não. A notícia só lhe deve chegar de aqui a dois ou três dias. Eu soube-a particularmente.
- Então dou-lha eu...
O velho dr. Canavarro parou de embalar o bloco e fitou o Lopo. Depois, calmamente, perguntou-lhe:
- Tu não estás de mal com ele?
- Estou, mas que tem lá isso? As pazes fazem-sedepressa. Ganhou, que hei-de eu fazer? Digo-lho...
- Bem, arranjai-vos lá. Quarta ou quinta da semana que vem., aparece, para se ver quanto deves. Sabes que a justiça não perdoa...
- Há tempo...
- Olha que eles gostam pouco de esperar
- Esperam...
O Dr. Canavarro, através dos óculos, ia lendo no rosto anguloso do Lopo o significado de cada palavra que dizia.
- Quarta ou quinta- insistiu. - Podecalhar - respondeu o outro, já com metade do corpo fora da porta.
Era Janeiro e a manhã parecia de Maio. Um sol branco, diáfano, fazia brilhar as clarabóias da Vila, cobertas da geada da noite. Pelas ruas a cabo, gente de sobretudo passava apressada.
- Vamos comer alguma coisa? - propôs o Marrau, que o esperava no estanque do Castro.
- Pode ser. Nada na figura e nos modos do Lopo denunciava odesespero que o lavrava.
- Em casa da Areias?
- Está bem.
- Se houvesse tripas, é que era! - lembrou o outro, guloso.
- Talvez haja. Mas não havia. - Tenho raia-informou a estalajadeira, a limpar as mãos gordurosas ao avental.
- Fumega?
- Isso é cá comigo... - respondeu a velha, num sorriso que fazia crescer água na boca.
- Pois venha ela! Sentaram-se os dois a uma mesa coberta de oleado aosquadradinhos e almoçaram como príncipes.
- Vai uma cigarrada ? - ofereceu o Marrau no fim., depois de a conta paga.
- Uma vez por festa - aceitou o Lopo, com bonomia. - E deixo-te - acrescentou.
- Homessa! Cuidei que íamos juntos mais...
- já fiz o que tinha a fazer e vou andando.
- Eu também pouco me demoro. É só ir às Finanças pagar a décima...
- A repartição não abre antes das duas.Fica-me tarde.
Disseram até logo à saída da porta, e enquanto o Marrau, desapontado, cortou a direito em direcção ao centro da Vila, o Lopo meteu pela calçada que levava à ponte e ia acabar na estrada de Carvas.
Pelo caminho, duas léguas bem medidas de serras e de carvalhais, nem o ar lavado das fragas nem a serena calma de tudo conseguiram arredar o Lopo das suas cogitações. Andava ligeiro, aéreo,sem ouvir as tachas das botas de atanado a rilhar o macadame. Mas só por dentro é que ia assim. Por fora, respondeu a todas as pessoas que encontrou e o salvaram, e em Lobrigos, seco dos finos da raia, bebeu um quartilho, sem que o taberneiro desse conta de qualquer nuvem a turvar-lhe o semblante.
- Então adeus, ti João!
- Adeus., Manuel. Vais-te chegando ao borralho?
- Não há remédio... -respondeu, já na rua.
Até Carvas foi o mesmo quebra-cabeças. Os montes iam passando, o rio Verdeiro cachoou-lhe nos ouvidos, levantaram-se perdizes a dois metros., e o Lopo sempre a andar, calado e sério.
No Caleirão deixou a estrada e meteu pelas matas. Depois desandou à esquerda, atravessou o souto do Ró, e chegou à entrada da mina que lhe fora roubada.
Da boca escura que abrira na fraga, a...
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