Musica popular brasileira

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O TRABALHO NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
 
1 - DO MALANDRO AO OPERÁRIO (1926 - 1958)
1.1 - Surge o Malandro
Uma letra de música falando em trabalho era algo raro até meados da década de 1920. Os meios de divulgação musical existentes na época eram o teatro musicado, partituras e discos. Todas estas opções eram dirigidas a um público de renda alta. Os compositores que eram admitidos nesse meiotambém estavam na mesma faixa econômica. O trabalho assalariado não fazia parte das preocupações cotidianas desses artistas. As músicas da época eram canções românticas, sátiras à política ou comentários sobre costumes.
O samba já era um gênero que conseguira entrar nesse círculo no final da década de 10, mas se ressentia de uma grande semelhança com o maxixe, além de suas letras serem,geralmente, uma colcha de retalhos, uma estrofe não tendo nada a ver com a outra ou mesmo com o título. Sem contar que o samba, ainda procurando seu caminho, foi atropelado pelo avassalador sucesso da música nordestina no Rio de Janeiro (que dali a difundia para o restante do país) durante a década de 20.
Um dos primeiros sambas falando em trabalho a fazer sucesso foi “Morro de Mangueira”, de ManuelDias, gravado por Pedro Celestino para o carnaval de 1926:
“Eu fui a um samba lá no morro da Mangueira/ Uma cabrocha me falou de tal maneira/ Não vai fazer como fez o Claudionor/ Para sustentar família foi bancar o estivador.// Ó cabrocha faladeira,/ Que tens tu com a minha vida?/ Vai procurar um trabalho/ E corta esta língua comprida.”
No ano seguinte, foi introduzido no Brasil o sistema elétricode gravação de discos, aumentando a qualidade do som e diminuindo o custo. Com o disco mais barato, a tendência do mercado era crescer, o que logo atraiu muitas gravadoras para se instalarem no país. Um novo mercado para a música popular foi criado em 1932, quando o governo autorizou as emissoras de rádio a veicularem anúncios. A programação, até aí voltada a palestras e música de concerto, passa atocar cada vez mais música popular.
Gravadoras, rádios e editoras de música abriram espaço para os sambistas, que neste primeiro momento trouxeram suas produções como eram cantadas no morro, falando de malandragem, amor, jogo... e criticando o trabalho. Um dos sucessos de 1928 foi o samba “Eu Quero é Nota”, de Artur Faria (não confundir com o músico e jornalista porto-alegrense Arthur de Faria),lançado por Francisco Alves:
“Eu quero é nota, carinho e sossego/ Para viver descansado/ Cheio de alegria, meu bem/ Com uma cabrocha a meu lado.// Eu queria ter dinheiro/ Que fosse em grande porção/ Eu comprava um automóvel/ E ia morar no Leblon.// Eu, como sou operário/ E não posso ser barão,/ Vou morar lá em Mangueira/ Num modesto barracão.”
Quase sempre o trabalho era apresentado como algoruim. Causou surpresa este samba do carnaval de 1929, que o exaltava, desprezando a malandragem: “Vadiagem”, composto por Francisco Alves e gravado por Mário Reis.
“ A vadiagem eu deixei/ Não quero mais saber/ Arranjei outra vida/ Porque desse modo não se pode viver.// Eu deixei a vadiagem/ Para ser trabalhador/ Os malandros de hoje em dia/ Não se pode dar valor.// Ora, meu bem,/ Diga tudo quequiser/ Eu deixei de ser vadio/ Por causa de uma mulher.// Quando eu saio do trabalho/ Pensativo no caminho/ Que saudade do meu tempo/ Que saudade do meu pinho.// Mas chego em casa/ É carinho sem ter fim/ Vale a pena ser honesto/ Pra poder viver assim.”
Francisco Alves, cantor de tantos sambas de malandragem, teria mudado de lado? Ele mesmo respondeu gravando, ainda em 1929, seu samba “GolpeErrado”:
“ Mas que golpe errado eu dei/ Dizendo que eu ia deixar a vadiagem!/ Com o tal de trabalho não me acostumei/ Nem mesmo por camaradagem.// Força eu não faço/ Faça quem quiser/ No tal de trabalho eu passo/ Pegar no pesado/ Meu santo não quer/ Pra não ficar mal-acostumado.// Doa a quem doer/ Só vivo folgado/ Pois eu sei me defender/ Trabalho, isso não!/ Meu corpo é fechado/ É contra a minha...
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