Mauss

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Apesar de todas as homenagens, A Noção de Pessoa… não é, certamente, o
primeiro texto da história da antropologia a abordar essa questão. O próprio Mauss
(1927) já havia tratado do tema quase dez anos antes, por ocasião de um debate em
torno do livro de Lévy-Bruhl sobre A Alma
Primitiva, publicado em 1927. Livro que pretendia justamente estudar
“como os homens que se convencionou chamarprimitivos se representam sua
própria individualidade” (Lévy-Bruhl, 1927, Avant-Propos).
É claro que os princípios gerais adotados por Lévy-Bruhl não podiam permitir que
traçasse uma evolução ou uma história no estilo da de Mauss. Para ele, não haveria
nenhuma elaboração mais sofisticada a respeito do ser humano enquanto indivíduo nas
sociedades primitivas, e o que se poderia apreenderem suas representações é que este
jamais é pensado independentemente do que o cerca, de suas roupas a seus antepassados
reais ou míticos. O indivíduo não passaria de um “lugar de participações”, e, para
compreender como chegamos a uma noção da pessoa em si, seria preciso abandonar o
postulado de uma lenta evolução ascendente, substituindo-o pela hipótese de uma
mutação de ordem mentalque teria feito com que passássemos a ver seres individuais lá
onde os primitivos enxergavam apenas relações e participações totais. É nesse espírito
que, alguns anos mais tarde, Maurice Leenhardt (1947) empreenderá a investigação da
Pessoa e o Mito no Mundo Melanésio.
Mas é possível recuar mais um pouco. Num trabalho fascinante, Adam Kuper
(1988) demonstrou que a elaboração de uma imagemdas sociedades ditas primitivas,
bem como das “tradicionais”, cumpriu a função política e intelectual de permitir o
desenvolvimento de imagens da “sociedade moderna”, de nossa própria cultura. Através
de um curioso jogo de espelhos, partia-se de uma concepção mais ou menos implícita da
sociedade ocidental, encontrava-se nos primitivos o inverso dessa estrutura, e
confirmava-se, assim,nossa originalidade e superioridade. Desse modo, desde 1861,
Maine pôde opor o “contratualismo” do Ocidente ao caráter estatutário das sociedades
primitivas e tradicionais. À imersão do indivíduo no grupo e nas relações sociais, nossa
cultura teria contraposto, a partir do direito romano, a livre associação deindivíduos.
Lembremos que Mauss situava seu trabalho sobre a pessoa na esfera dodireito e da
moral e que Maine era um jurista preocupado em provar a inviabilidade da aplicação
direta da legislação britânica na Índia: baseada no contratualismo e no utilitarismo,
como poderia funcionar em uma sociedade que não saberia reconhecer conceitualmente
o indivíduo?Status eContr ato são efetivamente outros nomes para o que se costuma
designar por sociedade e indivíduo. Nessesentido, haveria ainda muito a dizer sobre o
papel da sociedade hindu na constituição e desenvolvimento do pensamento
antropológico, bem como sobre os aspectos morais e jurídicos que marcam a
emergência deste último.
De qualquer forma, não se trata de negar que o texto de Mauss constitua um marco
decisivo dos estudos sobre a pessoa. Seeger, DaMatta e Viveiros de Castro buscam
situá-lo naorigem de uma das duas vertentes que distinguem na contribuição
antropológica sobre o tema. Seria preciso acrescentar apenas que, como vimos, o
próprio trabalho de Mauss apresenta dois aspectos, o
evolutivo e o relativista. É certamente no segundo que se pensa quando se afirma o pano
de fundo maussiano dos estudos das “noções de pessoa enquanto categorias de pensamento nativas —explícitas ou
implícitas — enquanto, portanto, construções culturalmente variáveis” (Seeger,
DaMatta e Viveiros de Castro, 1979, p. 5).
A inclusão da obra de Louis Dumont nessa vertente só me parece pertinente, contudo,
se admitirmos, como tentarei mostrar adiante, que seus trabalhos se ancoram no aspecto
evolutivo do texto de Mauss — mais do que no relativista, em todo caso. Antes, porém,...
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