Matematica e dificil

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“MATEMÁTICA

É

DIFÍCIL”:

UM

SENTIDO

PRÉ-CONSTRUÍDO

EVIDENCIADO NA FALA DOS ALUNOS Marisa Rosâni Abreu da Silveira Contextualizando o problema

Valendo-se da tríade "ler, escrever e contar", a Matemática ocupa o lugar das disciplinas que mais reprova o aluno na escola. A justificativa que a comunidade escolar dá a esta "incapacidade" do aluno com esta área do conhecimento é que"matemática é difícil" e o senso comum confere-lhe o aval. Como matemática é considerada útil, o aluno não pode passar para a série seguinte sem atestar seu conhecimento na disciplina e desta forma aceita-se inclusive que o aluno seja reprovado apenas em matemática, nem que seja por décimos para atingir a média instituída pela escola onde estuda. O fato de a matemática reprovar significativamenteo aluno na escola ser aceito sem contestações pela comunidade escolar, leva-nos a fazer algumas reflexões sobre o fracasso do aluno na disciplina, levando em conta a justificativa de que "matemática é difícil". A análise das formulações discursivas dos alunos quando falam desta dificuldade, bem como os fatos históricos que contribuíram para que este pré-construído que diz "matemática é difícil" epor conseqüência "matemática é para poucos" mantivesse seus resquícios ao longo do tempo, manifestado, assim por toda comunidade escolar e pela mídia, se faz necessário. A re-significação do pré-construído é uma interpretação da dificuldade da matemática, mas que mesmo mostrando facetas diferentes, corrobora com a sua manutenção. O referencial teórico da Análise de Discurso Francesa oferecesubsídios para guiar estas reflexões, pois para analisar este pré-construído, é preciso oportunizar a palavra ao aluno, já que ele é o sujeito mais afetado por esta "dificuldade". A manutenção ou desestabilização do pré-construído no interdiscurso depende de continuarmos aceitando, reproduzindo o já-dito sem questionamento ou interrogarmos a veracidade desta expressão consolidada e banalizada emdiferentes vozes.

"Matemática é para poucos": um sentido marcado na história

2 Este discurso pré-construído que foi re-significado ao longo da história encontrou ecos nas diferentes vozes analisadas, representando verdades cristalizadas, já que parece não poder ser contemplado com um olhar diferente. Como o discurso pré-construído é ilocalizável, apresento alguns recortes discursivos que apontampara o pré-construído.

Problemas ligados ao início das estações podem ter criado a necessidade dos primeiros cálculos (...) Foram eles os primeiros “matemáticos”, os primeiros calculistas. Os sacerdotes egípcios executavam laboriosas medições a fim de adquirirem um razoável conhecimento acerca das enchentes e vazantes do Rio Nilo. Em seus templos, bem dissimulados, existiam nilômetros, aparelhosque os ajudavam nesse mister. O povo não participava desse trabalho nem conhecia a existência desses instrumentos1. Assim, quando os sacerdotes previam determinada enchente vazante, tal previsão era recebida pelo povo aureolada de profecia; por via de conseqüência, os sacerdotes recebiam não apenas reverências reservadas aos profetas e deuses, como, possivelmente mais importante que isto, outrashomenagens mais materiais como presentes, dinheiro, etc. Desta forma, desde o início, a produção e organização do conhecimento matemático estavam em mãos da classe dominante, já que os sacerdotes constituíam - se em aliados importantes do poder (Tenório,1995, p. 105). Nesse primeiro recorte discursivo, aparece a presença do não-dito, o que não aparece no discurso dos sacerdotes, ou seja, oocultamento de informações para a comunidade, que com isso obtinham mais prestígio, demonstrando assim, o caráter ideológico que a matemática começa a apresentar, confirmando o discurso que diz que a “ matemática é para poucos”. A aritmética e a geometria só começam a ser tratadas como ciências no século VI a.C., com aparição dos filósofos de Pitágoras, no que diz respeito à cultura ocidental. Esses...
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